Drones baratos desafiam arsenais bilionários e mudam os cálculos das potências militares ocidentais
A guerra na Ucrânia abriu um debate dentro das grandes potências militares ocidentais sobre o custo de sustentar um conflito prolongado. No centro da discussão está a seguinte questão: até que ponto é possível continuar usando caças, mísseis e sistemas de defesa extremamente caros para enfrentar armas relativamente baratas, fáceis de produzir em grande quantidade e rapidamente substituíveis, como os drones.
Países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) já precisaram mobilizar equipamentos e munições que custam milhões de dólares para responder a incursões de drones russos relativamente baratos no espaço aéreo da aliança no Leste Europeu. No ano passado, cerca de duas dezenas de drones russos entraram no território da Polônia e levaram a Otan a acionar caças F-16 poloneses, F-35 holandeses, uma aeronave italiana de alerta aéreo, aviões de reabastecimento e sistemas Patriot alemães.
Só os três mísseis AIM-9 Sidewinder disparados por F-35 aliados para derrubar três dos drones custaram mais de US$ 1,4 milhão (R$ 7,3 milhões), sem contar combustível, horas de voo, manutenção e os demais equipamentos mobilizados. O cálculo foi apresentado em um relatório elaborado por Annamaria Cantore, diplomata do Ministério das Relações Exteriores da Lituânia, para a Heritage Foundation, think tank conservador americano. Segundo o estudo, cada míssil custava mais de 400 mil euros (R$ 2,4 milhões), enquanto os drones abatidos valiam apenas alguns milhares de euros.
Em maio, a Romênia acionou novamente caças F-16 depois que um drone russo entrou no espaço aéreo do país durante uma ofensiva contra a Ucrânia e atingiu um prédio residencial em Galați, perto da fronteira, deixando duas pessoas feridas. Em junho, dois caças Rafale franceses que participavam da missão de policiamento aéreo da Otan nos países bálticos foram acionados após outra incursão de drones na Letônia.
Em análise publicada pelo think tank International Institute for Strategic Studies (IISS), o pesquisador Charlie Edwards estimou em cerca de US$ 11,8 mil (R$ 61,2 mil) o custo dos drones simples utilizados na incursão contra a Polônia. Ao menos parte deles foi identificada como o modelo Gerbera, unidade russa de baixo custo construída com materiais como compensado e espuma e utilizada principalmente para confundir e sobrecarregar sistemas de defesa aérea. Segundo Edwards, a resposta com caças, aeronaves de alerta e reabastecimento e mísseis ar-ar expôs uma vulnerabilidade da Otan: se empregada em grande escala, uma ofensiva com centenas de drones baratos russos poderia pressionar rapidamente os estoques de interceptadores caros da aliança.
Rússia e Ucrânia perceberam ao longo da guerra que um conflito prolongado não pode depender apenas das armas mais sofisticadas de seus arsenais. Os russos investiram na parceria com o regime do Irã para adquirir e produzir drones de ataque Shahed-136, cuja versão fabricada na Rússia passou a ser conhecida como Geran-2. Estimativas reunidas pelo CSIS, think tank americano especializado em segurança e defesa, colocam o custo unitário desses equipamentos entre US$ 20 mil e US$ 50 mil (R$ 103,8 mil a R$ 259,5 mil).
Os ucranianos apostaram principalmente na produção em massa de drones menores e ainda mais baratos. Um exemplo são os Shrike, fabricados pela empresa ucraniana SkyFall: um lote de 50 mil unidades financiado pela Alemanha por cerca de 90 milhões de euros (R$ 531,6 milhões) neste ano colocou o custo médio em aproximadamente US$ 2 mil por drone (R$ 10,4 mil). Na Operação Teia de Aranha, o serviço de segurança ucraniano lançou 117 drones FPV a partir de caminhões posicionados perto de bases aéreas russas para atacar a aviação militar estratégica de Moscou. Os equipamentos utilizados, identificados como drones Osa, da empresa ucraniana First Contact, custavam cerca de US$ 2,5 mil a US$ 3 mil por unidade (R$ 13 mil a R$ 15,6 mil). Autoridades americanas disseram à agência Reuters que até 20 aeronaves foram atingidas e cerca de dez destruídas, entre elas bombardeiros Tu-95 e Tu-22M3, modelos antigos e difíceis de substituir.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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