Debate sobre juros tem tudo a ver com mobilização juvenil e popular que levou Lula à vitória, diz André Singer
O cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições foi sustentada em grande parte por uma mudança de postura do governo, que passou a dialogar com as necessidades reais da população. Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirma que medidas com impacto direto no bolso do eleitor foram cruciais para a virada do primeiro para o segundo turno.
Segundo Singer, o marco dessa mudança foi o comício de Porto Alegre, em 11 de setembro, quando o presidente reconheceu que os preços do supermercado estavam caros, citando especificamente o café e a carne. A partir daí, o governo adotou uma série de iniciativas, entre elas a proibição das bets, o Desenrola 3, o reajuste do Bolsa Família, medidas envolvendo os MEIs, a aprovação do fim da escala 6x1 e a proposta de tarifa zero no transporte público nos fins de semana. "Nós tivemos um pacote que, na minha opinião, mudou o caráter do governo", diz.
O pesquisador relaciona a epidemia das apostas a uma tríade de fatores: aumento do custo de vida, crise de endividamento das famílias e a proliferação das bets. Como o mecanismo das apostas é feito para que a pessoa perca, a maioria acabava ainda mais endividada, em situação angustiante.
A esse conjunto somou-se, na análise de Singer, uma "explosão social" no segundo turno, com os jovens indo em massa às ruas num fenômeno que ele não via desde 2013. Ele compara as manifestações da Avenida Paulista dos dias 11 e 24 de outubro à grande manifestação da direita pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em março de 2016. Para o cientista político, nenhuma manifestação alcança essa dimensão sem conteúdo popular, e o caráter propositivo — pela reeleição de Lula — veio acompanhado do repúdio à extrema-direita, que quase se materializou no primeiro turno.
Junto a isso, Singer cita a operação digital do "Exército do Janones", que capilarizou o movimento para o país inteiro, com manifestações em centenas de cidades. Apesar da vitória, ele alerta que a democracia ainda corre risco: "Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática". O avanço da direita radical, segundo o pesquisador, tem raízes no agravamento das desigualdades causado pela crise financeira de 2008. "A sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos", afirma. A boa notícia, diz, é que a extrema-direita também não está encontrando solução para essas pessoas.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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