Como vale-tudo no STF 'sequestrou' a eleição — e quais as consequências disso
A crise sem precedentes instalada no Supremo Tribunal Federal (STF), escancarada pelo caso do Banco Master, tornou pública a divisão da Corte, aprofundou conflitos entre os ministros e transbordou para a disputa eleitoral deste ano. O racha parece ter chegado a um ponto de não retorno, e o vai-e-vem de decisões passou a dominar a agenda política.
Na última semana antes do primeiro turno, o embate girou em torno das publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. André Mendonça mandou suspender posts que associavam Flávio Bolsonaro (PL) a um projeto para retirar o título da padroeira do Brasil. Dois dias depois, Flávio Dino determinou a liberação das publicações, decisão derrubada em seguida por Luiz Fux. Depois, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, pôs o assunto na pauta do plenário virtual. Antes disso, o cabo de guerra já havia envolvido as investigações sobre o Banco Master, precedido pela destituição e reintegração, num intervalo de 24 horas, de Andrei Rodrigues na direção da Polícia Federal.
Decisões do STF e do TSE também foram citadas pela TV Globo como motivo para cancelar o último debate antes do primeiro turno. Em quase todos os lances, chamou atenção a luta aberta entre os ministros, muitas vezes por caminhos de tramitação heterodoxos, numa espécie de vale-tudo criticado por juristas e que o presidente da Corte, Edson Fachin, tenta moderar. Os holofotes que normalmente estariam sobre os candidatos voltaram-se para qual será a próxima decisão derrubada ou a próxima notícia envolvendo um ministro.
"Essa é uma eleição muito diferente, porque a crise do Master e do Supremo sequestrou a agenda", afirma Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo ele, toda a agenda política passou a depender de novidades e revelações que as campanhas não controlam, tornando-as mais reativas do que propositivas. Poucas propostas foram discutidas entre os presidenciáveis, apesar de 45% dos eleitores afirmarem que elas são o critério mais importante para o voto, segundo pesquisa Quaest divulgada no início de setembro.
Para o professor Christian Lynch, da UERJ, a crise do Judiciário desanimou o eleitor, e a abstenção pode ser ainda maior do que em 2022, quando 32 milhões de pessoas não votaram. A desconfiança em relação ao STF também bateu recorde: quase metade (48%) dos eleitores diz não confiar na Corte, segundo pesquisa Datafolha divulgada no último dia 18 — o maior índice entre as instituições avaliadas. "A indefinição é o maior impacto desta crise", diz Teixeira, que também aponta possível aumento das abstenções.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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