Como um movimento de estudantes nascido de uma tragédia acabou com 14 anos de domínio político na Sérvia
A oposição na Sérvia, liderada pela Lista Estudantil, conquistou uma vitória histórica nas eleições gerais de domingo, ao obter mais de 50% dos votos e garantir a maioria parlamentar. O resultado encerra 14 anos de hegemonia política do presidente Aleksandar Vučić e de seu Partido Progressista Sérvio (SNS). O movimento nasceu de uma tragédia: em 1º de novembro de 2024, a cobertura de concreto desabou em frente à estação ferroviária de Novi Sad, matando 16 pessoas. O episódio foi visto como emblemático da corrupção generalizada, já que o próprio presidente esteve envolvido no projeto de reforma da estação.
O que começou como protestos semanais nos campi universitários e nas ruas logo se tornou um movimento nacional, com atuação em nível local e adesão de agricultores, atores e juízes. Em janeiro de 2025, o primeiro-ministro Milos Vucevic renunciou "para apaziguar as tensões". Em março, Belgrado testemunhou o maior protesto antigovernamental da história do país. Sem líderes óbvios e sem experiência política, os estudantes se organizaram por meio de assembleias e plenárias. Quando Vučić anunciou eleições antecipadas no mês passado, já estavam preparados.
A lista — cujo nome completo é "Lista Estudantil - Estudantes Vencem" — apresentou candidatos para as 250 cadeiras parlamentares, mas nenhum estudante concorreu. Segundo a projeção final dos institutos independentes CeSID e Ipsos, 141 pessoas da lista conquistaram cadeiras. Entre elas estão o ex-astro do basquete Dejan Bodiroga, o ator Tihomir Stanić, o cantor de ópera Nikola Mikić, o ex-governador do Banco Nacional da Sérvia Dejan Šoškić e um número considerável de professores. O principal candidato foi o cardiologista Ilija Srdanović, que afirmou que "a energia é imparável" e que o movimento ofereceu aos cidadãos "os valores fundamentais de uma sociedade civilizada".
Os deputados eleitos terão a tarefa de cumprir um programa de 11 pontos, que prevê erradicar a corrupção com a formação de uma unidade policial para prender os responsáveis, expurgar do Ministério do Interior os funcionários que violaram a lei na repressão a manifestantes, reformar o panorama midiático e libertar a emissora pública do controle político, além de impedir o recrutamento de membros leais ao partido para chefiar empresas públicas. O SNS nega que haja corrupção ou tentativa de influenciar os meios de comunicação.
Em Belgrado, Novi Sad e Nis, o clima era de euforia, com apoiadores reunidos nos centros das cidades e em frente à sede da Lista Estudantil. Nas redes sociais, os estudantes declararam: "A Sérvia foi libertada". O ato mais simbólico foi o fim do chamado Ćaciland, acampamento pró-Vučić montado há 18 meses no Parque dos Pioneiros, em frente ao Parlamento, cujas cercas de metal foram derrubadas em meio a gritos de "Vučić está indo embora". O presidente reconheceu a vitória, mas afirmou que o movimento estudantil fracassará "mais rápido do que pensam".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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