Como o agro-bolsonarismo na Amazônia e no Centro-Oeste equilibrou a disputa com Nordeste lulista, segundo professor de universidade britânica
O economista Fernando Rugitsky, pesquisador do departamento de Economia da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres, avalia que a ascensão do chamado "agro-bolsonarismo" deu à direita radical uma base territorial e social comparável à que o PT construiu no Nordeste. Segundo ele, o fenômeno está concentrado na Amazônia e, sobretudo, nas fronteiras agrícolas do Centro-Oeste.
Rugitsky lembra que o Nordeste é a única região onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderou no primeiro turno, com 63,77% dos votos, ante 30,85% de Flávio Bolsonaro. "Por causa dessa base, o PT ganhou cinco das últimas seis eleições para o governo federal", afirma. "Essa base era muito difícil de ser enfrentada por um projeto político sem um enraizamento tão significativo no território." No Centro-Oeste, por outro lado, Flávio teve 56,51% dos votos, contra 32,62% de Lula.
De acordo com o pesquisador, o agro-bolsonarismo vai além dos grandes empresários do setor e encontra sustentação em camadas intermediárias de produtores rurais, especialmente nas regiões marcadas pela expansão da soja e da pecuária. Ele observa que o mapa eleitoral do primeiro turno é muito parecido com o das duas últimas eleições, com forte sobreposição entre os territórios da soja e da carne e a base eleitoral bolsonarista.
Rugitsky relaciona o avanço desse bloco às políticas de comando e controle do desmatamento da Amazônia adotadas nos primeiros anos do governo petista, no início dos anos 2000. Ele ressalta, porém, que a redução do desmatamento não é apenas uma conquista a ser celebrada, mas uma necessidade urgente, já que estudos de cientistas climáticos indicam que o bioma Amazônia está próximo do ponto de não retorno. "Não se trata de defender que a solução para evitar a ascensão do agro-bolsonarismo teria sido simplesmente deixar o desmatamento rolar solto", diz.
Segundo o economista, o boom da soja e do gado no interior do país desde o começo dos anos 2000 transformou completamente a ocupação de terras, em um movimento sem precedentes na experiência histórica. Ele acrescenta que esses setores passaram a ser dominados por poucos compradores — no caso da soja, as grandes traders internacionais conhecidas como ABCD (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus), e, no da carne, os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva.
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