Como cultura machista dos anos 2000 que 'embalou' Russell Brand, agora condenado por estupro
O comediante britânico Russell Brand foi considerado culpado de uma acusação de estupro e três acusações de agressão sexual pelo Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres, ao final de um julgamento de três semanas. A condenação ocorre após uma trajetória em que o artista construiu a fama explorando justamente o comportamento que, mais tarde, serviria de pano de fundo para o processo contra ele.
Brand tornou-se conhecido como um libertino sexualmente escandaloso, cujo humor ousado fascinava o público. Ele cultivava a imagem de um mulherengo insaciável e sem vergonha, com sexo, drogas e excessos no centro de seu repertório cômico. Em suas apresentações de stand-up, relatava com detalhes explícitos suas aventuras sexuais, simulava atos sexuais no palco e chegou a descrever práticas diante da plateia. Emissoras como MTV, Channel 4 e BBC disputavam sua presença e lhe ofereciam vultosas quantias. Até o advogado de defesa classificou o humor como "um produto de sua época", lembrando ao júri que aquele tipo de comédia sexualmente explícita era então vista como algo "radical e diferente".
O final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, na Grã-Bretanha, foram um período que celebrava o sexismo casual e frequentemente exaltava celebridades que o propagavam. Em 1999, a revista FHM projetou uma foto nua da apresentadora de TV escocesa Gail Porter na fachada do Parlamento britânico; ela só soube do ocorrido ao ver a notícia na televisão e, mais tarde, relatou como o episódio afetou profundamente sua saúde mental. O que hoje poderia ser classificado como masculinidade tóxica era, muitas vezes, considerado engraçado — visto por alguns como o típico "humor masculino" à moda antiga e, por outros, como aceitável por acreditarem que tudo não passava de ironia.
Na avaliação de Sarah Ditum, autora do livro Toxic: Women, Fame and the Noughties, não há dúvida de que Brand era um comediante muito talentoso e de que havia, na época, um desejo de quebrar tabus. "Ao olhar para trás, tudo isso parece extremamente ultrapassado. Envelheceu muito mal, e duvido que muitas pessoas queiram defender o repertório de Brand agora, sabendo que aquilo refletia seu comportamento na vida real, e não uma performance irônica", afirmou. Segundo ela, as pessoas "tendem a confundir ironia e autoconsciência com sinceridade e confiabilidade".
Já na época havia indícios de que o comportamento extravagante nos palcos não terminava quando o espetáculo acabava, o que ficou mais evidente na autobiografia de 2007, My Booky Wook, que liderou a lista de mais vendidos do Sunday Times por sete semanas e teve 600 mil exemplares vendidos em capa dura no Reino Unido. No processo, uma das denunciantes relatou ao tribunal que não denunciou o ocorrido por acreditar que não seria levada a sério, dado o "clima cultural da época, marcado por uma mentalidade machista e de camaradagem masculina". "Era a minha palavra contra a dele", afirmou.
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