Como a guerra do Irã reacendeu a disputa pelo Canal do Panamá
O Canal do Panamá, hidrovia artificial de cerca de 80 quilômetros que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, tornou-se o mais recente palco da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. O pano de fundo é a guerra entre Israel e Irã, que elevou a tensão no Estreito de Ormuz e redirecionou fluxos de comércio para a rota centro-americana.
Washington afirma que o avanço da influência chinesa na região representa risco ao comércio internacional e à segurança global. Pequim rejeita as acusações e diz que os EUA usam o argumento para ampliar sua presença no entorno da hidrovia. Em meio ao embate, o Panamá busca reafirmar sua soberania e preservar a neutralidade do canal, garantida por tratados desde a transferência total do controle ao país, concluída em 31 de dezembro de 1999.
O tráfego pela via voltou a crescer em 2026. Segundo o Conselho Marítimo Internacional e do Báltico (Bimco), uma média de 38 embarcações cruzava o canal diariamente no fim de maio, alta de 8% ante o ano anterior. Nas cinco semanas seguintes ao início da guerra entre Israel e Irã, o volume de cargas subiu 16% na comparação anual. Com a navegação por Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, tornando-se incerta, compradores asiáticos passaram a recorrer mais ao petróleo e a combustíveis produzidos na Costa do Golfo dos EUA. O aumento do fluxo gerou filas, disputa por vagas e tarifas recordes em leilões de passagem prioritária.
O canal movimenta cerca de 5% do comércio marítimo global, mas responde por quase 40% do tráfego de contêineres dos Estados Unidos, segundo o professor Orlando J. Pérez, da Universidade do Norte do Texas. A operação, porém, enfrenta pressão ambiental: os níveis do Lago Gatún seguem abaixo da média histórica, e a Autoridade do Canal do Panamá anunciou redução do número diário de travessias de 36 para 32 embarcações a partir de 15 de setembro de 2026, por causa da diminuição das chuvas e da maior variabilidade climática.
No centro da disputa está a influência sobre a operação, não o controle da via. A CK Hutchison, conglomerado de Hong Kong, administra por meio de subsidiária os portos de Balboa e Cristóbal, nas duas entradas do canal, desde 1997. A Suprema Corte do Panamá considerou inconstitucional a estrutura jurídica da concessão portuária no início deste ano. O presidente dos EUA, Donald Trump, tem dito que a China exerceu influência excessiva sobre o Panamá e sugeriu que Washington poderia retomar o controle da hidrovia, ideia rejeitada pelo governo panamenho. Em abril, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, classificou as acusações de "totalmente infundadas" e acusou Washington de politizar a questão.
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