Cérebro entre 50 e 75 anos passa por mudanças que podem explicar o envelhecimento cerebral
Um estudo publicado na revista Science identificou uma transformação importante no cérebro humano entre os 50 e os 75 anos, período em que diferentes sistemas cerebrais passam por alterações coordenadas. A pesquisa analisou tecidos do hipocampo de 40 cérebros de adultos considerados neurotípicos, distribuídos de forma equilibrada entre homens e mulheres e em quatro faixas etárias: 20 a 40, 40 a 60, 60 a 80 e 80 a 100 anos.
Os cientistas usaram técnicas capazes de observar, em células individuais, expressão gênica, acessibilidade da cromatina, metilação do DNA e organização tridimensional do genoma. Os resultados indicaram que algumas alterações ligadas à idade têm comportamento não linear e que uma mudança relevante ocorre por volta da meia-idade. No caso das micróglias — células que atuam na defesa e na vigilância do sistema nervoso —, houve transição particularmente marcada entre os 50 e os 75 anos.
Segundo o estudo, as micróglias originadas durante o desenvolvimento embrionário foram progressivamente reduzidas e substituídas por uma população com características epigenéticas semelhantes às de monócitos do sangue. A mudança foi mais evidente entre 50 e 75 anos; depois dos 79, a população identificada como Micro2 era predominante. As células substitutas apresentaram características associadas a programas pró-inflamatórios, o que pode contribuir para a neuroinflamação relacionada à idade.
Para a neurologista Amanda Machado, do Hospital INC, o cérebro nessa faixa etária passa por transformações que fazem parte do envelhecimento normal, incluindo redução gradual do volume cerebral. Uma das manifestações pode ser a diminuição da velocidade de processamento de informações, o que faz a pessoa precisar de mais tempo para lembrar um nome, aprender algo novo ou alternar entre tarefas. A especialista ressalta que essas alterações, isoladamente, não significam demência.
O hipocampo foi escolhido por ser região essencial ao aprendizado e à memória. A pesquisa também observou erosão global da organização tridimensional do genoma em diferentes tipos de células dessa área, com redução da integridade dos domínios de associação topológica (TADs) e diminuição da ligação da proteína CTCF ao DNA. Além das micróglias, os pesquisadores identificaram redução na quantidade de astrócitos, células envolvidas na comunicação entre neurônios e na manutenção da barreira hematoencefálica.
Os autores destacam que o envelhecimento não é apenas um declínio gradual, mas uma remodelação dinâmica dos sistemas imunológico, vascular e neuronal. Especialistas ouvidos na reportagem afirmam que a descoberta não deve ser interpretada como sentença de perda cognitiva, já que a trajetória varia entre indivíduos e sofre influência de genética, saúde cardiovascular, atividade física, sono, escolaridade, estímulo intelectual e relações sociais.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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