As gangues que seguem impunes após décadas de exploração sexual infantil no Reino Unido: 'Ainda vejo meus abusadores no supermercado'
Mulheres que sobreviveram a anos de exploração sexual na Inglaterra afirmaram à BBC que ainda encontram seus abusadores circulando livremente pelas cidades onde moram. Segundo as vítimas, muitos dos criminosos cumpriram penas curtas de prisão ou nunca chegaram a ser processados.
"Uma loja, um posto de gasolina, um restaurante. Em qualquer lugar que você possa imaginar, você verá um homem que fez alguma coisa", disse Sarah, uma das sobreviventes, à BBC. Ela e outras duas mulheres, moradoras de Oxford, acreditam que "centenas" de criminosos da quadrilha continuam soltos. Um ex-detetive que liderou a investigação inicial sobre as gangues de aliciamento sexual na cidade concorda com a avaliação. É a primeira vez que Sarah e outra sobrevivente falam publicamente sobre o que sofreram; as identidades foram alteradas para protegê-las.
Investigações policiais revelaram que grupos de homens exploraram e abusaram sexualmente de meninas menores de idade em diversas cidades inglesas — como Oxford, Rotherham, Rochdale e Telford — entre as décadas de 1990 e 2010. Em algumas cidades, a maioria dos autores foi identificada como homens mais velhos de origem paquistanesa. Em Rotherham, a polícia foi acusada de hesitar em agir contra os criminosos por medo de ser vista como racista. Já em Oxford, uma investigação minuciosa não encontrou evidências de que esse tenha sido um fator determinante.
O governo britânico lançou neste ano uma investigação nacional para apurar por que crianças vulneráveis não foram protegidas na Inglaterra e no País de Gales. Uma das hipóteses é que as atitudes de autoridades policiais em relação à etnia dos agressores podem ter contribuído para as falhas. O inquérito, com orçamento de 65 milhões de libras, deve durar no máximo três anos, até 2029, e pretende analisar como as quadrilhas operavam, o que as forças policiais sabiam e deixaram de fazer, além dos fatores culturais e institucionais que levaram a que muitas crianças não fossem acreditadas — e, em muitos casos, fossem responsabilizadas pelo próprio abuso.
Sarah afirma ter sido abusada sexualmente e drogada com heroína desde os 11 anos. Mais de duas décadas depois, três homens foram considerados culpados de abusá-la após seu testemunho em tribunal e condenados, em 2020, a penas que variaram de cinco a 24 anos. Para ela, as penas foram brandas e demoraram a ser aplicadas. Chloe, outra sobrevivente, diz que também vê alguns de seus agressores na região e optou por não prestar queixa. Rachel, abusada entre os 12 e os 15 anos, foi testemunha central no primeiro julgamento da quadrilha de Oxford, em 2013, quando sete homens foram condenados. Uma estimativa de 2015 aponta que mais de 370 crianças foram abusadas. Um porta-voz da polícia do Vale do Tâmisa disse que as autoridades trabalham "incansavelmente" para investigar e processar os criminosos e que "nunca é tarde demais para denunciar".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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