A rede de propaganda pró-Rússia que explora violência sexual e usa mulheres do Exército ucraniano como isca
Campanha no Telegram usa imagens de mulheres ucranianas para atrair público a canais pró-Rússia
Uma investigação do Serviço Mundial da BBC identificou uma rede de anúncios enganosos no Telegram que usa fotos reais de mulheres ucranianas — muitas delas integrantes ou ex-integrantes do Exército — para atrair usuários a canais de propaganda favoráveis à guerra da Rússia. As publicações afirmam falsamente que as mulheres foram capturadas e estupradas, e prometem vídeos que comprovariam os abusos. Ao clicar, porém, o usuário é levado a canais privados com conteúdo pró-Kremlin, sem qualquer imagem do tipo.
A BBC encontrou mais de 6,5 mil anúncios com alegações de violência sexual, publicados por cerca de 1,7 mil canais de pequeno porte. Juntas, as publicações acumularam mais de 65 milhões de visualizações. A maioria seguia a mesma fórmula: usava fotos reais de mulheres, afirmava que elas haviam sido sequestradas e estupradas e incluía um link que prometia provas em vídeo. As mulheres também eram acusadas de torturar soldados russos ou de defender que crianças russas fossem queimadas vivas, em publicações repletas de insultos étnicos e de gênero.
Keti Leshkasheli, médica da Geórgia que serviu como paramédica militar na Legião Internacional da Ucrânia, contou à BBC que descobriu a fraude quando amigos e familiares viram publicações afirmando que ela havia sido capturada e estuprada. Uma foto sua, tirada anos antes em Avdiivka, cidade no leste da Ucrânia hoje sob ocupação russa, foi usada como isca. "Escreveram todo tipo de horror sobre mim. Me dá raiva. Não posso fazer nada a respeito", disse. A BBC conversou com sete mulheres que tiveram imagens usadas na campanha.
A investigação rastreou uma rede de canais que se beneficia da campanha para atrair seguidores. Seis deles ultrapassaram 1 milhão de inscritos. O Pryamoy Efir Novosti, associado a mais de 1 mil das publicações analisadas, tem hoje mais de 4 milhões de inscritos e se apresenta como veículo de notícias, embora tenha sido criado com nome que remetia a conteúdo adulto. Os canais reproduzem conteúdo da mídia estatal russa e seguem a linha do Kremlin. A BBC também identificou publicações semelhantes fora do Telegram, em plataformas como TikTok, YouTube e VKontakte.
Valentyna Shapovalova, pesquisadora de desinformação de gênero, afirma que a campanha "vende a promessa de violência sexualizada como entretenimento" para atrair e monetizar a atenção dos usuários. Mesmo sem produção estatal, diz ela, as publicações contribuem para os objetivos de guerra da Rússia ao humilhar ucranianos e normalizar a violência sexual contra o "inimigo". Das mais de 6,5 mil publicações identificadas, quase 5,4 mil foram removidas, mas novas continuam surgindo, algumas com sinais de automação. As denúncias feitas pelas mulheres ao Telegram tiveram pouco efeito, segundo relatos à BBC.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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