A luta para salvar cidade canadense ameaçada pelas tarifas de Trump
A decisão da empresa americana RYAM de manter a fábrica de papel de Témiscaming, no Quebec, em “paralisação por razões econômicas” por tempo indeterminado deixou a maioria dos 360 funcionários desempregada. A cidade, construída há mais de um século em torno do moinho e das florestas da região, viu o valor dos imóveis despencar praticamente da noite para o dia, e placas de “Vende-se” se espalham pelos jardins das casas modestas de classe média.
O fechamento ocorre após o fracasso das negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos e a imposição de tarifas de até 50% sobre setores como aço, alumínio, automóveis e, no caso local, madeira, celulose e papel. “Não é apenas um emprego. É a nossa casa”, diz Nadine Suley, moradora que classifica as tarifas americanas como “um ataque pessoal”. Há temor de que profissionais de serviços essenciais, de funcionários de supermercados a médicos dos pequenos hospitais locais, também deixem a cidade. “Se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma”, afirma Ronnie Raymond, que vem de uma família de trabalhadores da fábrica.
O impacto pode se espalhar por todo o setor florestal da região, atingindo serrarias e empresas de transporte rodoviário. Um empreiteiro local relatou à BBC que já precisou demitir 13 funcionários. Em linhas gerais, a economia canadense resistiu à guerra comercial com os EUA: a taxa de desemprego nacional permaneceu praticamente estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas, em paralelo a um crescimento moderado, porém consistente. Uma análise mais detalhada dos números, no entanto, revela focos de grande dificuldade nos setores diretamente afetados.
Diante do cenário, trabalhadores mobilizam uma coalizão de moradores interessados em recomprar a fábrica da RYAM, que a adquiriu em 2017. A última vez que a cidade enfrentou ameaça semelhante foi em 1973, quando o então proprietário americano ameaçou fechar a unidade e trabalhadores e gestores locais se uniram para comprá-la, transformando-a na Tembec. “Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar”, diz o funcionário e líder sindical Stéphane Lefebvre, cujo pai e avô também trabalharam na fábrica. Ele argumenta que a iniciativa só será possível com ajuda significativa do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, por meio de medidas de alívio tarifário ou apoio financeiro. A RYAM afirmou à BBC que não comentaria a possibilidade de venda da fábrica nem a existência de eventuais compradores.
O prefeito Alain Gauthier não culpa a RYAM pela decisão e descreve as tarifas americanas como “uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá”. Ele quer que o governo federal responda com tarifas sobre produtos de papelão importados dos Estados Unidos, que hoje entram no país sem cobrança. “Sentimos que entramos em uma guerra armados com pistolinhas de água de criança para revidar”, afirma. Um porta-voz da ministra da Indústria, Mélanie Joly, informou que o governo disponibilizou C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas e que “está trabalhando ativamente com todas as partes envolvidas para encontrar uma solução viável” para a empresa.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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