15 mil travessias, zero atropelamentos: como pontes salvam animais na Amazônia
O biólogo Gabriel Falquetto seguia pela rodovia ES-164, no Espírito Santo, por volta das 7h da manhã, quando avistou no asfalto o corpo de um sagui-da-serra-claro (Callithrix flaviceps). A espécie é classificada como criticamente em perigo pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), com cerca de 2.500 indivíduos estimados em vida livre — um dos primatas mais ameaçados do planeta.
Falquetto trabalha no monitoramento da fauna e de atropelamentos na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Kaetés, na Mata Atlântica. “Foi extremamente doloroso e desanimador. Nós percorremos essa região diariamente monitorando a fauna e comemoramos cada encontro com grupos de saguis-da-serra-claro na floresta”, relatou. “Encontrar um indivíduo nessas condições causa um sentimento de tristeza e impotência.” O episódio ocorreu em junho deste ano.
A cerca de 2.900 km dali, em Alta Floresta, no extremo norte de Mato Grosso, casos como esse não são registrados desde 2024. Na estrada de acesso à cidade, oito pontes de dossel foram instaladas para conectar trechos de floresta fragmentada. Imagens de armadilhas fotográficas revelaram que, em 15 meses, as passagens aéreas de fauna proporcionaram 15 mil travessias seguras de animais arborícolas — sem nenhum atropelamento.
O contraste entre as duas realidades ilustra o impacto das estradas sobre a biodiversidade e o papel das estruturas de conexão entre fragmentos florestais para a preservação de espécies ameaçadas. Enquanto a rodovia capixaba segue registrando perdas, a experiência no Mato Grosso mostra que soluções de infraestrutura voltadas à fauna podem reduzir drasticamente a mortalidade de animais silvestres.
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