Votos branco e nulo beneficiam algum candidato?
O voto em branco ocorre quando o eleitor não manifesta preferência por nenhum candidato: na urna eletrônica, basta pressionar a tecla "branco" e, em seguida, "confirma". Já o voto nulo é lançado quando se digita um número que não corresponde a nenhum candidato. Apesar de registrados de formas diferentes, ambos têm o mesmo efeito sobre o resultado: não entram na contagem dos votos válidos, aqueles efetivamente dados a algum candidato e usados para definir o vencedor.
Isso significa que brancos e nulos não são transferidos para nenhum candidato, nem para o que está à frente. Mas, dependendo de sua proporção, podem influenciar indiretamente a disputa. Quanto mais votos brancos e nulos houver, menor será o total de votos válidos usado para calcular a maioria — o que reduz a quantidade de votos necessária para um candidato vencer. Um exemplo: em uma eleição com dez eleitores e três candidatos, o primeiro recebe cinco votos, o segundo três e o terceiro dois, e nenhum obtém mais da metade dos válidos. Se um dos dois eleitores que votaria no terceiro candidato anular, restam nove votos válidos; o primeiro continua com cinco, mas passa a ter mais da metade e poderia vencer sem segundo turno. O voto nulo não foi transferido a ele: mudou apenas a base de cálculo.
"Na prática, quem vota nulo ou branco deixa que os outros decidam", afirma Luciana Veiga, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). "Quanto maior é a porcentagem [de brancos e nulos], mais chance daquele que está na frente conseguir ser eleito no primeiro turno", diz Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Segundo as especialistas ouvidas pela BBC Brasil, não é possível afirmar com certeza quem seria beneficiado indiretamente por um aumento desses votos na atual disputa presidencial, pois seria preciso saber qual candidato cada eleitor que anulou favoreceria caso tivesse dado um voto válido. O perfil dos que declaram intenção de anular dá algumas pistas: na última pesquisa Datafolha, 7% dos entrevistados no Sudeste disseram pretender anular, contra 5% no Nordeste, 4% no Centro-Oeste e Norte e 3% no Sul. Por religião, 4% dos católicos e 7% dos evangélicos declararam a intenção. As professoras, porém, avaliam que as diferenças ainda são pequenas para conclusões seguras.
Também é comum o mito de que uma eleição seria cancelada se mais de 50% dos eleitores anulassem o voto ou votassem em branco. Isso não acontece: mesmo que fossem maioria, brancos e nulos continuariam fora da contagem dos votos válidos, e o vencedor seria definido a partir dos válidos restantes. Uma proporção elevada, no entanto, pode ter significado político — segundo Veiga, números altos podem sinalizar alienação do eleitorado e sensação de falta de representação pelas opções disponíveis.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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