Um novo olhar sensível em tempos de caça-cliques
O Papa Leão XIV escolheu como tema da Mensagem do 61º Dia Mundial das Comunicações Sociais (DMCS), a ser celebrado em 2027, a proposta “Um novo olhar: ‘prestar atenção’ na era do clickbait”. O anúncio foi feito pelo Dicastério para a Comunicação nesta terça-feira, 29 de setembro, dia em que a Igreja celebra os Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.
O clickbait — expressão traduzida como “caça-cliques” ou “isca de clique” — é o recurso de títulos, imagens ou chamadas construídos para despertar a curiosidade e capturar a atenção. Nem sempre se trata de notícia falsa: o conteúdo pode ser verdadeiro, mas a chamada exagera, esconde parte da informação ou cria expectativa apenas para provocar o clique.
Segundo a reflexão apresentada pelo Dicastério, a proposta do Papa não se limita a discutir uma técnica de internet. A provocação é mais profunda: o que está acontecendo com o olhar humano em uma cultura que disputa permanentemente a atenção? Cercados por mensagens, notificações, vídeos e comentários, muitos aprendem, sem perceber, a olhar depressa demais — vê-se uma manchete e reage-se, vê-se uma fotografia e julga-se, assiste-se a segundos de um vídeo e chega-se a uma conclusão. A velocidade da comunicação nem sempre é acompanhada pela profundidade do encontro.
Na apresentação do tema, o Dicastério fala de uma verdadeira “conversão do olhar”: olhar novamente, com atenção e amor, aprendendo a enxergar o mundo, os outros e a si mesmo como Cristo vê, chamados pelo nome e amados. A reflexão, portanto, deixa de ser apenas tecnológica e se torna cristã. Conhecer a lógica das plataformas — formatos, linguagens, alcance, métricas e algoritmos — não significa assumi-la como critério para comunicar o Evangelho. O algoritmo pode premiar a agressividade, mas o Evangelho continua pedindo caridade.
O texto destaca a diferença entre chamar a atenção e prestar atenção. A primeira atitude pode colocar o outro a serviço do próprio conteúdo; a segunda coloca a comunicação a serviço do outro. Para quem comunica na Igreja, o desafio inclui perguntas anteriores às métricas: isso é verdadeiro? É necessário? É o momento? Esta linguagem aproxima ou apenas provoca? Preserva a dignidade das pessoas? Há frutos que nenhuma plataforma consegue medir, como uma publicação com poucas curtidas que ajuda alguém a voltar a rezar. Em tempos de caça-cliques, o convite é recuperar um olhar que não captura, mas acolhe; que não rotula, mas reconhece; que não transforma pessoas em números, mas se deixa tocar por suas histórias.
Esta matéria foi publicada primeiro em Religião · Vatican News PT e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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