Tabelamento de juros racha base aliada e Lula ignora tombo do mercado
A possibilidade de mudança na política monetária e a adoção de um mecanismo para limitar os juros ampliaram a divisão entre a equipe econômica e a base aliada do governo. A discussão, que já havia aparecido na semana anterior com o debate sobre o ajuste fiscal, ganhou novos contornos após a informação de que o economista André Lara Resende teria um encontro marcado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Um artigo publicado pelo economista no fim de setembro foi resgatado e passou a repercutir. No texto, Lara Resende propõe a redução gradual da Selic de 13,75% para cerca de 7,5% ao ano em 12 meses, além da criação de um mecanismo para estabelecer metas conjuntas para a política fiscal e a monetária. A ideia recebeu apoio de nomes ligados ao PT. A ex-presidente do partido e ex-ministra Gleisi Hoffmann classificou o artigo como “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”. José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo, celebrou o “fim do pensamento único” sobre teoria monetária e defendeu atenção especial à criação de um mecanismo mais amplo que o Conselho Monetário Nacional (CMN) para coordenar as políticas monetária e fiscal.
No mercado financeiro e entre economistas, a proposta provocou reação negativa. Investidores interpretaram a possibilidade de adesão do governo à ideia como uma ameaça à autonomia do Banco Central. Economistas alertaram para pressão sobre as expectativas de inflação, elevação dos juros de longo prazo e risco de crise cambial decorrente da perda de confiança dos investidores. John Cochrane, professor da Universidade Stanford e um dos economistas citados por Lara Resende, fez ressalvas sobre a aplicação prática da proposta no Brasil: o sucesso dependeria da confiança dos investidores em superávits fiscais duradouros e de instituições capazes de sustentar o compromisso ao longo do tempo.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou a existência de um encontro agendado entre Lula e Lara Resende e afirmou que a proposta de “tabelamento de juros” não está na mesa do presidente. Nesta terça-feira (3), voltou a se manifestar para tentar acalmar os investidores. “Há uma precipitação muito grande sobre quem o presidente vai falar ou não, porque não há agenda colocada”, disse. “Nas agendas comigo, nós não estamos tratando de nada que justifique o mercado ter uma posição de medo.”
A fala do ministro não impediu que o Ibovespa registrasse a sexta queda consecutiva, de 1,42%. O dólar subiu 0,79%, fechando a R$ 5,48. Os juros futuros fecharam em alta, com pressão maior nos vencimentos de médio e longo prazo: a taxa do DI para janeiro de 2029 passou de 14,962% para 15,070%, e a do contrato para janeiro de 2031 subiu de 15,272% para 15,370%. Na quarta-feira (4), na primeira reunião após a reeleição de Lula, o Copom interrompeu o ciclo de cortes e manteve a Selic em 13,75% ao ano, em decisão unânime. O Boletim Focus divulgado na terça elevou as estimativas para o dólar, de R$ 5,05 para R$ 5,34; para a Selic, de 13,25% para 13,50%; e para o IPCA, de 5,19% para 5,22%.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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