Por que EUA querem retomar execuções públicas após quase um século?
O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou que os militares executarão publicamente Nidal Hasan, responsável pela morte de 13 soldados desarmados em 2009 na base de Fort Hood, no Texas. Segundo o Pentágono, a execução por fuzilamento está prevista para dezembro e será transmitida ao vivo. "As pessoas precisam entender que esse tipo de coisa tem consequências sérias", afirmou Hegseth.
A medida marca uma ruptura com quase um século sem execuções públicas de grande repercussão no país. O último caso do tipo ocorreu em 14 de agosto de 1936, em Owensboro, Kentucky, quando cerca de 20 mil pessoas acompanharam o enforcamento de Rainey Bethea, um órfão na casa dos 20 anos condenado por roubar, estuprar e matar uma viúva de 70 anos. O governador do estado proibiu execuções públicas 18 meses depois. Outro enforcamento com algumas centenas de espectadores ocorreu no Missouri em 1937, mas teve menor notoriedade.
Michael Radelet, professor emérito da Universidade do Colorado e estudioso da pena de morte, disse ter ficado chocado com o anúncio. Ele observou que o apoio público à pena capital tem caído de forma constante — de 80% em 1994 para 52% atualmente —, especialmente quando se oferece a alternativa de prisão perpétua sem condicional. Para Radelet, com a decisão, "a justificativa para a pena de morte se torna entretenimento".
A autora Sonya Lea, que publicou um livro sobre a execução de Bethea, afirmou ter sentido "absoluto horror" ao saber da transmissão. Seus avós, recém-casados adolescentes, estavam entre os presentes em 1936 e ficaram perto o suficiente para ouvir o pescoço de Bethea estalar. "O que chamavam disso em 1936 era um carnaval de sadismo", disse ela. "O fato de agora termos a tecnologia que permite que isso atinja um público muito maior torna tudo ainda mais horrível."
O professor de psicologia social Kurt Gray, da Universidade Estadual de Ohio, avalia que parte dos americanos pode estar "sedenta de sangue", mas muitos estão apenas dessensibilizados. Já Garen Wintemute, diretor do Programa de Pesquisa de Prevenção da Violência da Universidade da Califórnia em Berkeley, sustenta que os dados apontam declínio no interesse pela violência no país e que o governo pode estar fazendo uma leitura errada da situação. O vice-presidente JD Vance disse não saber se a execução ocorrerá como planejado e afirmou que não pretende assistir. O presidente Donald Trump declarou aprovar "totalmente" o plano, mas disse que o Pentágono ainda estava "tomando uma decisão".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar