Papa Leão XIV enfrenta na França o tema que divide a Europa ao meio
O Papa Leão XIV chega a Metz, na França, neste 28 de setembro para um encontro inter-religioso, seguido de um discurso sobre as "Raízes da Europa para a Paz e a Unidade" no Centro de Conferências Robert Schuman. A visita ocorre em meio à primeira viagem apostólica do pontífice ao país, marcada pela defesa da vida humana e por sinais de reavivamento católico, mas também pela questão da imigração, que se impôs como tema central.
Um dia antes do Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, em 26 de setembro, Leão visitou a Maison Bakhita, centro para migrantes em Paris — gesto que sinaliza continuidade com a defesa dos migrantes característica do pontificado de Francisco. Ao mesmo tempo, o papa tem dado destaque incomum às responsabilidades dos migrantes e às preocupações das sociedades receptoras. Ao apoiar a oposição dos bispos americanos às políticas de deportação em massa do presidente Donald Trump, em novembro passado, afirmou que "todo país tem o direito de determinar quem, como e quando as pessoas entram".
O equilíbrio é particularmente delicado para um papa cuja experiência foi moldada pela América Latina, onde a migração levanta desafios diferentes dos europeus. Em visita às Ilhas Canárias, em junho, invocou o "direito de não ter que migrar", alertou contra a criação de "mundos paralelos" e disse que as sociedades anfitriãs devem receber recém-chegados sem "diluir sua identidade".
Mais de uma década após a crise migratória de 2015 — quando mais de 1,2 milhão de pessoas pediram asilo na União Europeia —, a imigração se tornou uma das principais linhas divisórias da política europeia e do próprio catolicismo no continente. Na Alemanha, o partido anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve duas vitórias históricas em eleições regionais. Na França, o Rassemblement National, de Marine Le Pen, lidera as pesquisas para a eleição presidencial de 2027. O termo "remigração", antes restrito a círculos marginais, entrou no vocabulário político, impulsionado pela campanha "Save Europe Act", que já reuniu cerca de 750 mil assinaturas.
As tensões também atravessam a Igreja. Na Alemanha, bispos católicos alertaram contra o AfD e o apelo da "remigração", enquanto o cardeal Gerhard Müller acusou os bispos de usar indevidamente sua autoridade espiritual ao intervir na política partidária. Na Itália, o arcebispo Giancarlo Perego, chefe da comissão de migração dos bispos, acusou o governo de Giorgia Meloni de colocar "fronteiras antes das pessoas". O Catecismo da Igreja Católica, lembra a reportagem, pede que nações ricas acolham estrangeiros "na medida em que são capazes", ao mesmo tempo que afirma que autoridades podem regular a imigração em prol do bem comum. O discurso em Metz pode dar a primeira indicação de como Leão pretende navegar entre essas realidades.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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