O que é o mistério da assimetria da vida que rendeu Nobel de Química a cientistas
O Prêmio Nobel de Química foi concedido ao cientista francês Henri B. Kagan e ao japonês Kenso Soai por seus trabalhos que ajudaram a explicar um dos mistérios mais antigos da química: a assimetria da vida. Os dois pesquisadores desvendaram como a natureza produz exclusivamente a versão correta de uma molécula, em vez de sua imagem espelhada.
Na química orgânica, essa propriedade é conhecida como quiralidade. Moléculas quirais podem existir em versões "destras" e "canhotas", que são imagens espelhadas uma da outra — como as mãos humanas, que não são idênticas, mas cada uma é o reflexo da outra. Os aminoácidos, blocos de construção das proteínas, existem nessas duas formas. No entanto, os organismos vivos na Terra funcionam apenas com uma delas. A pergunta que os laureados responderam foi por que a vida favorece apenas uma dessas moléculas em detrimento da outra.
Enquanto a natureza produz quase exclusivamente a versão necessária para o seu funcionamento, as reações químicas em laboratório geralmente criam uma mistura com 50% de moléculas "destras" e 50% de "canhotas". Isso é particularmente relevante na produção de medicamentos, porque cada versão se comporta de maneira diferente ao interagir com o organismo. Uma pode ter propriedades de combate a doenças, enquanto a outra não faz nada ou até causa danos.
O desenvolvimento do medicamento Talidomida é um exemplo disso. Na década de 1950, ele era prescrito para mulheres grávidas que sofriam de enjoos matinais. Trata-se de uma molécula quiral: a versão "destra" é um tratamento eficaz, enquanto a "canhota" é tóxica. O medicamento original administrado era uma mistura das duas, e descobriu-se posteriormente que o corpo era capaz de convertê-las. Como resultado, milhares de crianças, filhas de mulheres que tomaram o medicamento, desenvolveram deficiências graves.
Henri Kagan, da Universidade Paris-Sud, descobriu em 1986 uma nova forma de manipular reações químicas, permitindo criar um excesso maior de uma das imagens espelhadas do que se acreditava ser possível. Kenso Soai, da Universidade de Ciências de Tóquio, deu o passo seguinte em 1995, ao publicar na revista Nature a primeira reação química com potencial para ser homoquiral — produzindo apenas a versão desejada de uma molécula orgânica. Em 2003, conseguiu controlar uma reação na qual apenas uma das duas imagens espelhadas possíveis era formada. "Além da própria vida", afirmou o Comitê Nobel em comunicado, "ninguém havia alcançado esse feito anteriormente".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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