'Meus pais me ensinaram a reconhecer policiais à paisana na multidão': como foi minha infância fugindo do FBI
Zayd Ayers Dohrn cresceu aprendendo a reconhecer policiais disfarçados e agentes do FBI no meio da multidão, a falar em código ao telefone e a viver com identidades falsas. Para ele, tudo aquilo tinha algo de brincadeira. "Desde quando eu era muito pequeno, meus pais me ensinavam lições revolucionárias", conta. A infância nada convencional é narrada por ele próprio em depoimento ao programa "Outlook", do Serviço Mundial da BBC.
Quando Zayd nasceu, sua mãe, Bernadine Dohrn, era uma das fugitivas mais procuradas pelo FBI. Ela liderava o Weather Underground, organização que buscava dar visibilidade à desigualdade e à injustiça racial nos Estados Unidos por meio de uma campanha de atentados a bomba contra edifícios simbólicos do governo, como o Capitólio, o Pentágono e o Departamento de Estado. Seu pai, Bill Ayers, também foi um dos fundadores do grupo, classificado pelo FBI como terrorista doméstico. Por isso, a família vivia sob identidades falsas, mudava-se com frequência e mantinha alerta constante diante da ameaça de prisão.
No quarto de Zayd não havia personagens da Disney, mas retratos de Ernesto "Che" Guevara e do revolucionário vietnamita Ho Chi Minh. Ele passou anos sem poder frequentar a escola primária, e a maior parte de seus amigos era filha de outros ativistas. As viagens em família também tinham caráter político: em vez de parques temáticos, os pais levavam os filhos a locais de lutas revolucionárias e de assassinatos de seus heróis. Em ao menos uma ocasião, segundo ele, a família foi explorar uma prisão federal para planejar uma fuga — o acampamento ficava a menos de um quilômetro da unidade onde estava detido um membro dos Panteras Negras.
Os pais de Zayd vinham de famílias brancas de classe média. Sua mãe era estudante de Direito na Universidade de Chicago e se envolveu na campanha de Martin Luther King Jr. na cidade, em 1966, convencendo-se depois da necessidade de uma mudança mais radical. O assassinato de King e a morte de Fred Hampton, líder dos Panteras Negras, em ação policial, a aproximaram ainda mais da militância. Já o pai se opunha ao serviço militar obrigatório e à Guerra do Vietnã. "Vamos trazer a guerra para casa", resumia o lema do grupo, segundo ele.
Dohrn relata que os integrantes se aproveitavam de preconceitos sobre jovens brancos e escolarizados: mulheres se passavam por secretárias para entrar em edifícios e colocar explosivos, muitas vezes em banheiros femininos. Ele afirma acreditar que os pais tentavam evitar vítimas, avisando antes das explosões e programando os artefatos para detonar com os prédios vazios, mas reconhece que, adotada a violência, fica difícil impedir tragédias. Antes de seu nascimento, um acidente na fabricação de bombas matou a namorada de seu pai à época e outros dois membros do grupo. Hoje adulto e pai, Zayd diz sentir orgulho dos pais em muitos aspectos, ainda que dificilmente imaginasse repetir os mesmos atos.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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