Do voto feminino à habitação popular: quem foi Carmen Portinho, pioneira do feminismo no Brasil
Carmen Velasco Portinho (1903-2001) foi uma das principais lideranças da luta pelo voto feminino no Brasil e a primeira brasileira a obter o título de urbanista. Nascida em Corumbá, então Mato Grosso e hoje Mato Grosso do Sul, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1911, ainda criança, e foi na então capital federal que iniciou seu engajamento feminista.
Segundo a historiadora Mary Del Priore, autora de Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000, Portinho chegou a sobrevoar o Rio de Janeiro soltando panfletos em defesa do sufrágio feminino, em uma época em que a aviação ainda era uma novidade. Ao lado de nomes como a ativista, bióloga e educadora Bertha Lutz (1894-1976), ela atuou pela conquista do direito de voto pelas mulheres, garantido no Brasil em 1932.
Formada em engenharia em 1925 pela antiga Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, tornou-se a terceira mulher brasileira a obter o diploma. No ano seguinte, ingressou no quadro de engenheiros da Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Rio e passou a lecionar no Colégio Dom Pedro 2º, então um internato masculino com corpo docente inteiramente formado por homens — o que, conforme o relato, foi tratado como escândalo social.
Em 1922, fundou com Bertha Lutz a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Em 1930, criou a União Universitária Feminina, voltada a fomentar a inserção da mulher nas profissões liberais, e, em 1937, a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas. Cursou pós-graduação em urbanismo em 1936 na então Universidade do Distrito Federal, requisito à época para o título de urbanista. Para obtê-lo, apresentou um anteprojeto para a futura capital federal, Brasília, com formato de transatlântico e previsão de uma metrópole de 2 milhões de habitantes — considerada por especialistas a primeira proposta para a cidade do Planalto Central baseada em conceitos do urbanismo moderno.
Após temporada na Europa em 1945, com bolsa do Conselho Britânico, durante a qual acompanhou equipes de construção civil que recuperavam cidades destruídas na Segunda Guerra, voltou ao Brasil e passou a defender o urbanismo e a arquitetura como instrumentos de transformação social. Criou e foi a primeira diretora do Departamento de Habitação Popular da Prefeitura do Distrito Federal e colaborou com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, seu companheiro, no projeto do Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais — Pedregulho, cuja ideia do complexo de moradia popular partiu dela.
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