Dia do Cerrado: Guimarães Rosa denunciou riscos ao bioma, diz bióloga
Em 1952, quando já era um escritor célebre, João Guimarães Rosa integrou uma comitiva de boiadeiros que percorreu 240 quilômetros do Cerrado mineiro, entre Três Marias e Araçaí. Durante o trajeto, anotou em cadernetas tudo o que observava, inclusive os sinais de devastação que surgiam no horizonte por causa das siderúrgicas.
Esses registros serviram de base para obras como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, ambos publicados em 1956 e que completam 70 anos em 2026. Segundo a professora Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o autor já percebia a presença do eucalipto e das siderúrgicas que devastaram a região. "Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio", afirma a pesquisadora, que lançou no mês passado a segunda edição de Ser-tão natureza, livro em que investiga a presença ecológica na obra de Rosa.
Para Mônica Meyer, a viagem da boiada é "um verdadeiro inventário do Cerrado na década de 1950", material de extrema riqueza que faz a intersecção entre natureza e cultura. Ela destaca que Guimarães Rosa não trata o bioma como cenário, mas como personagem. "O ser humano não está dissociado da natureza. A natureza faz parte do corpo de cada ser vivo", diz. Sob esse olhar, os humanos não são o centro da natureza, mas parte dela.
As anotações da viagem foram identificadas pela pesquisadora nos contos de Corpo de Baile e em Grande Sertão: Veredas. As obras detalham o rio de Janeiro, afluente do Rio São Francisco, em Três Marias, além dos bichos, das plantas e da movimentação das pessoas. A professora ressalta o poder de descrição do autor ao tratar do rio e das raízes pivotantes do Cerrado, que precisam absorver muita água. "O Grande Sertão: Veredas é um romance aquático", resume. Os protagonistas Riobaldo e Diadorim lidam com as alterações da natureza, e o próprio romance traça as duas estações do bioma: o período de chuva, de melhores condições, e o de seca, que precisa ser vencido.
Segundo a pesquisadora, Grande Sertão: Veredas não é apenas um dos principais romances escritos em língua portuguesa, mas também uma obra defensora da natureza. Ela cita o momento em que Diadorim mostra a Riobaldo o manuelzinho-da-crôa, nome popular da ave batuíra-de-coleira. "Ele nunca tinha olhado para o passarinho com prazer e para a beleza daquele espaço. Todo o romance está pontuado de registros da fauna e da flora e das águas", observa. Para Mônica Meyer, Guimarães Rosa estimula o leitor a olhar a natureza "com outros olhos, não como recurso natural ou como mercadoria, mas como um espaço vivo" — material que considera riquíssimo para trabalhar a educação ambiental e que define como "uma grande enciclopédia do Cerrado".
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