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Dia do Cerrado: Guimarães Rosa denunciou riscos ao bioma, diz bióloga

Por Ivan Marra
Atualizado em 11/09/2026 às 12:20 schedule 3 min de leitura visibility 42 visualizações share 0 compartilhamentos (0)
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Em 1952, quando já era um escritor célebre, João Guimarães Rosa integrou uma comitiva de boiadeiros que percorreu 240 quilômetros do Cerrado mineiro, entre Três Marias e Araçaí. Durante o trajeto, anotou em cadernetas tudo o que observava, inclusive os sinais de devastação que surgiam no horizonte por causa das siderúrgicas.

Esses registros serviram de base para obras como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, ambos publicados em 1956 e que completam 70 anos em 2026. Segundo a professora Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o autor já percebia a presença do eucalipto e das siderúrgicas que devastaram a região. "Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio", afirma a pesquisadora, que lançou no mês passado a segunda edição de Ser-tão natureza, livro em que investiga a presença ecológica na obra de Rosa.

Para Mônica Meyer, a viagem da boiada é "um verdadeiro inventário do Cerrado na década de 1950", material de extrema riqueza que faz a intersecção entre natureza e cultura. Ela destaca que Guimarães Rosa não trata o bioma como cenário, mas como personagem. "O ser humano não está dissociado da natureza. A natureza faz parte do corpo de cada ser vivo", diz. Sob esse olhar, os humanos não são o centro da natureza, mas parte dela.

As anotações da viagem foram identificadas pela pesquisadora nos contos de Corpo de Baile e em Grande Sertão: Veredas. As obras detalham o rio de Janeiro, afluente do Rio São Francisco, em Três Marias, além dos bichos, das plantas e da movimentação das pessoas. A professora ressalta o poder de descrição do autor ao tratar do rio e das raízes pivotantes do Cerrado, que precisam absorver muita água. "O Grande Sertão: Veredas é um romance aquático", resume. Os protagonistas Riobaldo e Diadorim lidam com as alterações da natureza, e o próprio romance traça as duas estações do bioma: o período de chuva, de melhores condições, e o de seca, que precisa ser vencido.

Segundo a pesquisadora, Grande Sertão: Veredas não é apenas um dos principais romances escritos em língua portuguesa, mas também uma obra defensora da natureza. Ela cita o momento em que Diadorim mostra a Riobaldo o manuelzinho-da-crôa, nome popular da ave batuíra-de-coleira. "Ele nunca tinha olhado para o passarinho com prazer e para a beleza daquele espaço. Todo o romance está pontuado de registros da fauna e da flora e das águas", observa. Para Mônica Meyer, Guimarães Rosa estimula o leitor a olhar a natureza "com outros olhos, não como recurso natural ou como mercadoria, mas como um espaço vivo" — material que considera riquíssimo para trabalhar a educação ambiental e que define como "uma grande enciclopédia do Cerrado".

Esta matéria foi publicada primeiro em Meio ambiente · Agência Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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