Delegados da PF temem 'efeito cascata' e impacto duradouro da guerra Moraes-Mendonça na corporação
O afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, concretizou um temor que já circulava internamente na instituição: o de que a PF fosse tragada pela crise entre Mendonça e o ministro Alexandre de Moraes. Delegados ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmam que o receio cresceu na semana passada, quando Mendonça retirou o sigilo de relatórios da PF sobre supostas mensagens entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Na avaliação desses delegados, a disputa entre os dois ministros usou relatórios produzidos pela PF como "munição", o que deixou a corporação exposta. Há o temor de que a crise atrapalhe investigações em andamento, abra espaço para futuras intervenções no comando da PF e, em última instância, faça com que delegados sejam punidos por terem cumprido ordens de ministros do STF. "Quando essas crises aparecem, a PF fica ainda mais desprotegida que outras instituições", disse o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Edvandir Félix de Paiva.
O temor em relação às carreiras ganhou força depois que Moraes divulgou um relatório de inteligência da PF sobre a atuação de Mendonça em casos sob sua relatoria, incluindo inquéritos ligados ao Banco Master. Na decisão desta terça-feira, Mendonça ordenou que a Corregedoria da PF abra investigação penal e administrativa contra Rodrigues e Almada por supostas violações funcionais. Na prática, os dois deixam a condição de investigadores para serem investigados e podem perder os cargos ou até ser condenados à prisão. Internamente, delegados criticam o uso do relatório de inteligência como prova, uma vez que a legislação brasileira não permite que esse tipo de documento tenha valor probatório em processos criminais.
Um delegado ouvido pela reportagem disse temer que Rodrigues e Almada sejam apenas os primeiros de uma série de responsabilizações. A preocupação atinge especialmente quatro delegados que assinaram o relatório sobre as mensagens entre Moraes e Vorcaro, elaborado a pedido de Mendonça. Segundo essa fonte, o ministro teria dito aos delegados que eles poderiam ser responsabilizados caso não cumprissem a decisão, uma postura considerada incomum. O receio é que, no meio do "tiroteio" de decisões entre os dois ministros, esses profissionais acabem punidos apenas por terem cumprido ordens.
Outro delegado ouvido em caráter reservado avalia que a crise atual é diferente de conflitos internos passados, pois as alas da corporação teriam sido instrumentalizadas pela disputa entre Moraes e Mendonça. Historicamente, a PF teria um grupo identificado com o bolsonarismo, que ocupou cargos de chefia na gestão de Jair Bolsonaro, e outro alinhado ao atual governo. Andrei Rodrigues, embora não seja visto como um policial de esquerda, é criticado pela proximidade com o presidente Lula desde a campanha de 2022. Os delegados citam crises anteriores, como a da Operação Satiagraha, em 2004, e a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça em 2020, mas dizem temer que a atual tenha impactos duradouros sobre a autonomia da instituição.
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