Da Amazônia ao Chaco, América Latina tem desafios com clima e terra
Relatos de lideranças comunitárias e indígenas da América Latina apresentados durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), encerrada na semana passada em Ulaanbaatar, na Mongólia, expõem desafios comuns da região para transformar metas internacionais de restauração e combate à seca em mudanças concretas para quem depende diretamente da terra.
Na Amazônia peruana, o indígena shipibo-konibo Gilmer Yuimachi, da Associação Intercultural Bari Wesna, afirma que os períodos prolongados de seca reduzem os níveis de rios, lagos e igarapés usados para consumo, pesca e agricultura, além de prejudicar cultivos como mandioca, milho, feijão e arroz. Para ele, o problema vai além das perdas econômicas. “A seca e a degradação dos solos não significam somente falta de água ou que a terra produz menos. Significam colocar em risco nossa alimentação, nossas florestas, nossos peixes, nossas plantas medicinais e também nossos conhecimentos e nossa cultura”, disse. Yuimachi também rejeita a imagem dos povos indígenas apenas como vítimas da crise ambiental: “Somos também guardiões do território e temos conhecimentos ancestrais que podem contribuir para a restauração das florestas, a adaptação às mudanças climáticas e a recuperação de terras degradadas”.
Em El Salvador, a líder juvenil Xenia López acompanha 16 comunidades rurais e semiurbanas no departamento de Chalatenango, dentro do Corredor Seco Centro-Americano, faixa que se estende do sul do México ao oeste do Panamá. Segundo ela, a região enfrenta longos períodos de estiagem e calor intenso mesmo na época de chuva. Xenia trabalha com as comunidades na adoção de práticas agroecológicas para melhorar o aproveitamento da água e proteger solos empobrecidos pelo uso intensivo de produtos químicos. Ela lamenta a falta de apoio de autoridades e organismos internacionais para soluções mais estruturais e afirma que, na conferência, o Brasil cedeu espaço no pavilhão do país para que histórias e lutas fossem compartilhadas.
Na parte argentina do Chaco Americano, a professora e ativista Antonella Sleiman, da Fundação para o Desenvolvimento em Justiça e Paz (Fundapaz), relatou que comunidades historicamente afetadas pela seca enfrentaram neste ano inundações em escala não observada havia cerca de 50 anos. Famílias que produzem milho, abóbora e outros alimentos para consumo próprio e comércio local, além de criarem cabras, ovelhas, vacas e porcos, perderam parte das plantações e da vegetação usada para alimentar os animais. “Este ano, pela primeira vez, algumas comunidades precisaram comprar alimentos para as famílias e para os rebanhos em localidades distantes”, contou.
Cerca de 28% dos territórios da América Latina são de terras degradadas, índice superior à média global, que gira em torno de 15% a 16%, segundo dados da convenção das Nações Unidas especializada no combate à desertificação (UNCCD). A conferência terminou com novos mecanismos de financiamento, discussões sobre uma arquitetura global de resiliência à seca e maior participação formal de povos indígenas e comunidades, mas representantes latino-americanos apontam que a distância entre as decisões internacionais e os cotidianos locais ainda é grande.
Esta matéria foi publicada primeiro em Meio ambiente · Agência Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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