'Bolsonarismo não está derrotado, está disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula', diz filósofo Renato Lessa
O filósofo político Renato Lessa, professor do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos terá efeitos significativos na política brasileira, sobretudo para o campo da direita. Para ele, à medida que o bolsonarismo ficar politicamente desorganizado — com o ex-presidente Jair Bolsonaro preso e os filhos mais velhos, Flávio e Eduardo, no exterior —, a direita democrática, que estava "colonizada", poderá reequilibrar o jogo de forças com a esquerda, como ocorreu após a Constituição de 1988 até os anos 2010.
Em entrevista à BBC News Brasil, Lessa afirma que a carta publicada por Flávio após chegar aos EUA foi um "tiro no pé", porque o desqualificou como líder mesmo depois de uma votação notável. Segundo o filósofo, o documento é "um delírio completo", com erros e mentiras, e representa um documento de "patologia política". Ele acrescenta que, ao perder a condição de liderar a oposição, outros atores tentarão ocupar esse lugar, e que operadores da direita e da extrema-direita já especulam possíveis substitutos.
Lessa ressalta que a derrota nas urnas não decreta o fim do bolsonarismo. "O homo bolsonarus está disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula", diz. O conceito, formulado por ele desde 2020, descreve um padrão de comportamento violento, para o qual os adversários são inimigos que devem ser abatidos e que busca estabelecer uma liberdade natural como norma do convívio social, sem mediação das leis ou convenções.
Na análise do filósofo, a irrupção desse fenômeno só foi possível após a ruptura na trajetória de aprofundamento da democracia causada pelo impeachment de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016. Até ali, o processo vinha ampliando direitos coletivos e forjando o que ele chama de homo democraticus. Lessa classifica o bolsonarismo como um fenômeno inédito na história política brasileira, por ser o único movimento surgido espontaneamente, sem herdar traços de dinâmicas do passado.
Ele observa que o bolsonarismo puro não tem 48% dos votos e que só canalizou esse contingente eleitoral porque, desde 2018, colonizou a direita. Como fenômeno social, continua a existir; como fenômeno político, não sobrevive se não fizer essa colonização. Para Lessa, a direita também precisa fazer uma autocrítica, e este talvez seja o momento de a política brasileira voltar ao eixo.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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