BBC entra na Faixa de Gaza: campos infestados de ratos e feridas que não cicatrizam
Em uma ala de isolamento do Hospital Nasser, na Faixa de Gaza, a menina Raseel, de 6 anos, chora deitada em uma cama. Ela sente dores constantes e sofreu uma fratura grave na perna direita, tem feridas infectadas nas pernas e na mão e carrega um estilhaço alojado no cérebro. Segundo a reportagem do Serviço Mundial da BBC, Raseel precisa de um enxerto de pele para fechar as feridas, mas antes é necessário que elas comecem a cicatrizar — e as infecções não respondem aos antibióticos disponíveis em Gaza. Sem alternativa, os médicos reabrem e limpam os ferimentos repetidamente, procedimento já realizado mais de 20 vezes.
Awni al-Jaafarawi, médico da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) que acompanha o tratamento, afirma que as feridas da menina estão infectadas por bactérias resistentes a vários medicamentos. Ele diz que os hospitais de Gaza registram altas taxas de infecções resistentes a antibióticos e que muitos pacientes precisam ser mantidos em isolamento porque as bactérias que carregam podem afetar o funcionamento da unidade de saúde a longo prazo. A resistência aos antimicrobianos ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas sofrem alterações ao longo do tempo e deixam de responder aos medicamentos usados para combatê-los; a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o problema uma das maiores ameaças à saúde pública mundial.
Um novo estudo compartilhado com o Serviço Mundial da BBC reforça o que o médico observa. A pesquisa, realizada ao longo de dez anos, entre 2015 e 2025, analisou quase 80 mil amostras bacterianas coletadas em 11 hospitais, sendo a maior análise sobre resistência aos antimicrobianos já feita em Gaza. O trabalho foi conduzido por cientistas de Gaza com o apoio de equipes da Fleming Initiative, do Imperial College London, no Reino Unido, e da Universidade Americana de Beirute, no Líbano. O estudo ainda não passou por revisão por pares e seus resultados são preliminares.
Os autores afirmam que a situação em Gaza criou condições propícias para a transmissão de infecções. "Durante conflitos, é comum que os sistemas de abastecimento de água e saneamento sejam destruídos. Esses serviços são fundamentais para prevenir infecções e impedir a disseminação de bactérias resistentes entre a população", diz Aula Abbara, médica da Fleming Initiative. Segundo ela, infecções que normalmente poderiam ser tratadas podem se agravar e se tornar impossíveis de combater, provocando sepse e até a morte nos casos mais graves. Para os feridos, uma das consequências é o aumento das amputações quando as infecções atingem os ossos. "Nos próximos anos, veremos o número de amputações aumentar diariamente, mesmo que a guerra termine", afirma al-Jaafarawi.
Um dos principais fatores para a disseminação das infecções é a falta de acesso à água potável e a serviços adequados de saneamento. Segundo a ONU, Israel destruiu ou danificou quase 90% da infraestrutura de abastecimento de água e saneamento de Gaza, incluindo usinas de dessalinização, tubulações e sistemas de esgoto. Um relatório da ONU divulgado em julho aponta que mais de 80% das famílias não têm acesso seguro à água e até 70% não conseguem obter sequer os seis litros diários por pessoa que a organização considera o mínimo indispensável para beber e cozinhar. A Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios (Cogat), órgão israelense responsável pela administração das fronteiras de Gaza, contesta os dados e afirma que o volume de água fornecido ao território supera o limite mínimo estabelecido pela ONU para situações de emergência humanitária.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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