A pequena cidade escocesa que procura migrantes para estancar a queda da população
Uma pequena cidade na costa oeste da Escócia, Greenock, vive um paradoxo demográfico: enquanto sua população encolhe há décadas, a chegada recente de imigrantes africanos e refugiados começa a mudar a paisagem local. A prefeitura da região de Inverclyde, onde a cidade está situada, lançou um programa para atrair mais moradores e tentar reverter a tendência de queda.
O problema tem raízes econômicas. A falta de empregos é apontada como o principal fator para o êxodo. A região, que já foi um centro mundial de refino de açúcar no século 19 — o que lhe rendeu o apelido de "Sugarópolis" — e um polo de construção naval por quase 300 anos, viu suas oportunidades de trabalho desaparecerem. A fabricante de computadores IBM, que empregava mais de 5 mil pessoas, fechou suas instalações em 2016. Nos últimos quatro anos, outros 1,5 mil postos foram perdidos, com a saída de empresas como Amazon e a operadora de celulares EE. Ainda neste mês, o estaleiro local anunciou corte de cerca de 25% do seu quadro de funcionários.
O impacto é visível. Moradores descrevem a cidade como uma "cidade-fantasma", sem lojas e sem opções de lazer. A falta de trabalho também é um obstáculo para os recém-chegados. Muitos imigrantes africanos vieram com vistos de trabalho qualificado e atuam nos setores médico e assistencial, mas refugiados enfrentam dificuldade para encontrar ocupação. "Quando o trabalho desaparece, somem as pessoas", resume uma moradora idosa. Na igreja local, o pastor Jonathan Fleming testemunha a mudança: "Realizamos muito mais funerais do que casamentos e batizados".
Apesar dos desafios, o fluxo migratório trouxe novas histórias. O número de pessoas vindas do exterior para Inverclyde triplicou, chegando a 750 por ano desde 2023. Centenas de africanos se estabeleceram na região, além de refugiados da Ucrânia, Afeganistão e Síria. Christianah Omilana, proprietária de uma loja de produtos africanos aberta em maio, afirma que os escoceses "são encantadores e hospitaleiros". Mo Almalarashid, refugiado sírio que chegou em 2018 sem falar inglês, hoje trabalha como instrutor em uma academia local. "Sempre houve gente disposta a me ajudar", conta.
O plano do governo local para aumentar a população inclui aulas de inglês, apoio para acesso a empregos qualificados e auxílio às escolas para uma educação inclusiva e antirracista. No entanto, a estratégia enfrenta ceticismo. Aposentados da região, embora favoráveis à vinda de imigrantes, questionam a sustentabilidade do fluxo. A cidade precisaria receber centenas de novos moradores todos os anos apenas para manter a população estável — atualmente de 78 mil habitantes, com previsão de queda de mais 16% nas próximas duas décadas. "Onde eles irão trabalhar?", questiona uma moradora. "Os moradores de Greenock não conseguem trabalho, que dirá trazendo mais pessoas."
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