Título de eleitor não vem com adesão ideológica
O professor de filosofia Francisco Razzo usou sua coluna na Gazeta do Povo para discutir a leitura de que candidatas antifeministas eleitas precisariam ter uma coerência ideológica com o movimento que abriu espaço para a participação feminina na política. Ele parte de uma pergunta que já lhe fizeram: como pode um professor de Filosofia não ser de esquerda. A questão, segundo ele, supõe que o diploma viria acompanhado de ficha de filiação partidária.
Razzo retoma o tema ao comentar análise publicada no Intercept Brasil por Camila Galetti sobre as antifeministas eleitas. Conforme o texto citado, seis eleitas do PL somaram mais de 6,5 milhões de votos, e a mulher mais votada para a Assembleia Legislativa paulista, com quase 2 milhões, se define como antifeminista. A autora da análise resume o incômodo ao afirmar que a explosão de votos ficou com candidatas que atacam justamente o movimento que abriu a porta para elas entrarem na política.
O colunista reconhece a verdade desse incômodo: sem a luta sufragista não haveria voto feminino e, sem voto, não haveria candidata. Ele observa, porém, que a genealogia não decide nada sobre o que as eleitas defendem agora. Usar um direito não obriga a concordar com quem o conquistou, compara: o título de eleitor não traz cláusula de reconhecimento de dívida, assim como a liberdade religiosa, conquistada por crentes perseguidos, serve hoje ao ateu sem que lhe exijam o batismo.
Razzo também critica um trecho da análise em que se afirma que as candidatas têm rosto de mulher e estrutura de homem, com campanha financiada pelo partido, suplente irmão e marido concorrendo junto. Para o colunista, ao conjugar os verbos dessa forma, sobra à mulher apenas o rosto, enquanto o restante da análise lhes dá verbo o tempo todo. Ele lembra ainda que, na França, o Senado barrou o voto feminino durante todo o entreguerras, em parte porque a esquerda laica temia que as mulheres votassem conforme a orientação do padre, e que o voto só veio em 1944.
O texto encerra citando Edmund Burke, que em 1774 avisou aos eleitores de Bristol que lhes devia o próprio juízo. Para Razzo, juízo próprio é o que a frase do rosto nega às eleitas, e quem as considera perigosas precisa admitir que elas pensam o que dizem.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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