Tirar Discord do ar, como pediu Janja, não resolve problema e pode empurrar usuários para plataformas fora do alcance da lei, dizem especialistas
Bloqueio do Discord no Brasil pode ter efeito contrário, dizem especialistas
A defesa da primeira-dama Janja da Silva para que o Discord seja retirado "imediatamente" do ar no Brasil não resolve o problema de moderação de conteúdo da plataforma e pode, na prática, empurrar usuários para serviços fora do alcance das autoridades brasileiras. A avaliação é de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil após o caso de uma menina de 13 anos que teria sido coagida a se suicidar durante uma transmissão ao vivo na plataforma.
Dados da Safernet, organização não governamental de defesa dos direitos humanos na internet, mostram que as denúncias envolvendo o Discord cresceram 54% de janeiro a julho de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado — foram 406 casos neste ano contra 264 em 2025, um recorde para o período desde 2017. A plataforma tem sido associada a crimes como venda de armas, planejamento de ataques a escolas, compartilhamento de abuso infantil, extorsão sexual e incentivo à automutilação.
Para Thiago Tavares, presidente da SaferNet, o bloqueio tende a ser ineficaz porque criminosos usam VPNs — ferramentas que criam conexões criptografadas e permitem contornar restrições — para seguir acessando o serviço, como já ocorre em países como Rússia, Turquia e Irã. "Isso tem um efeito contraproducente, porque você acaba disseminando o uso dessas ferramentas de contorno de bloqueios", afirma. Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, acrescenta que os usuários podem migrar para plataformas sem representante legal no Brasil, "mais distantes ainda do alcance das leis brasileiras".
O Discord afirmou em nota que não tolera grupos que incentivam a violência e que coopera com as autoridades na investigação do caso. A empresa diz manter diálogo com o Ministério da Justiça e ter contribuído com operações que resultaram em prisões. Especialistas apontam, porém, que a arquitetura da plataforma, baseada em espaços fechados com acesso por convite, e a falta de verificação etária facilitam a proliferação de crimes. Eles defendem que os modelos de detecção da empresa sejam treinados em português, já que o Brasil está entre os cinco maiores mercados do Discord.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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