'Razão e Sensibilidade': 4 erros das adaptações de Jane Austen, segundo especialistas
As obras de Jane Austen (1775-1817) seguem sendo readaptadas com frequência. Neste ano, chegam duas novas produções: uma versão cinematográfica de Razão e Sensibilidade, dirigida por Georgia Oakley e com estreia prevista nos cinemas brasileiros em 29 de outubro, e uma série de TV baseada em Orgulho e Preconceito. Segundo especialistas ouvidos pela BBC Culture, certos aspectos dessas adaptações costumam desagradar aos admiradores da escritora britânica.
O primeiro ponto é o foco excessivo no romance de conto de fadas. Para a pesquisadora Kathryn Sutherland, da Universidade de Oxford, Austen é uma romancista psicológica e se concentra muito mais na heroína do que no par romântico. Suas protagonistas são imperfeitas e enfrentam desafios morais e obstáculos sociais. A professora Sandie Byrne, também de Oxford, lembra que Austen sabia que precisava do "felizes para sempre" para vender livros, mas não fazia do beijo, do pedido ou do casamento o clímax de suas histórias. Ao elevar o romance a roteiro principal, as adaptações acabam ignorando a crítica de classes e a realidade sombria das mulheres na era da Regência Britânica.
O segundo erro está nas roupas, nos penteados e nos dentes. Na era da Regência, apenas meninas muito jovens usavam cabelos soltos; as mais velhas prendiam os cabelos sob gorros, segundo Byrne. A nova versão de Razão e Sensibilidade mostra Elinor, de 19 anos, e Marianne, de 17, com longas madeixas soltas. A professora Juliette Wells, do Goucher College, nos Estados Unidos, critica ainda os dentes e os corpos moldados em academias do século 21. "Muito poucos personagens de Austen são descritos como tendo bons dentes", observa. Para ela, atores que atendem aos padrões de beleza atuais não coincidem com os retratos historicamente precisos da época.
O terceiro item é a dificuldade de reproduzir a linguagem e o ritmo de Austen. Conhecida pelos diálogos espirituosos e pela narração onisciente, ela é lida pela ironia, pelo humor e pela sátira. Byrne afirma que Austen não é uma romancista muito visual: "Ela não incentiva você a ver as coisas, mas sim a ouvir". As adaptações, segundo Sutherland, costumam adotar o estilo romântico visual de Charlotte Brontë. Wells diz sentir falta da linguagem e da meticulosa escolha de palavras da autora, algo que nenhuma adaptação consegue transmitir.
Por fim, o elenco glamouroso demais é apontado como outro problema recorrente. A versão de Persuasão da Netflix, de 2022, foi criticada pela maquiagem evidente de Dakota Johnson no papel de Anne Elliot, o que gerou acusações de "rosto de iPhone" — expressão usada para atores de dramas históricos com aparência moderna. Para Wells, essa distância estética afasta o público da obra original.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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