Quase 90% de conteúdos virais sobre saúde são falsos, diz Agência Lupa
O levantamento analisou 764 materiais checados pela agência entre março de 2017 e junho deste ano. Desse total, 667 foram considerados inverídicos. O relatório, intitulado Raio-X da Desinformação em Saúde, contou com o apoio da Afya, um dos maiores grupos de ensino médico do país. Na média, foram quase 72 falsidades virais em saúde por ano, ou seis casos por mês.
Conteúdo viral é aquele que se espalha rapidamente pela internet e alcança um grande número de pessoas em pouco tempo, gerando alto engajamento, com muitas visualizações, curtidas e compartilhamentos em alta velocidade. Segundo a Lupa, o volume explodiu na pandemia: em 2020 e 2021, a agência checou cerca de dez vezes mais conteúdos sobre saúde do que nos três anos anteriores, somando 452 conteúdos virais. As mentiras se espalharam a partir de estratégias como falsas autoridades divulgando promessas de cura e soluções simples para problemas complexos. Esse padrão já era verificado antes da covid-19, mas passou a aparecer em quantidade muito maior.
"Um dos maiores desafios da desinformação em saúde é que ela se apropria da linguagem e da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições para parecer legítima", afirma a fundadora da Agência Lupa, Cristina Tardáguila. A técnica da falsa autoridade médica ou científica correspondeu a 21,6% dos casos mapeados. Em seguida, o medo e a linguagem alarmista aparecem por trás de 17% das publicações falsas. Distorção de estudos e dados (15,7%) e soluções simples para problemas complexos (12,6%) completam as estratégias mais utilizadas.
“Hoje, o profissional de saúde precisa estar preparado não apenas para diagnosticar e tratar, mas também para ajudar o paciente a navegar em um ambiente de excesso de informações, muitas delas sem respaldo científico”, afirma o vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya, Gustavo Meirelles. Nos últimos nove anos, os temas mais recorrentes nas checagens sobre saúde foram covid-19 (61%), tratamentos, cura e prevenção (34%) e alimentos, bebidas e nutrição (24%).
Sobre vacinas, os conteúdos correspondiam a 9,1% das checagens antes da pandemia. A proporção chegou a 33,2% durante a emergência nacional e a 38,9% entre 2022 e 2024. Entre 2025 e junho de 2026, o volume recuou para 20%, mas segue mais que o dobro do patamar pré-pandemia. Das 244 alegações sobre vacinas analisadas, 212 (86,9%) foram classificadas como falsas. Ao menos 142 conteúdos registravam a presença de figuras públicas, o que, segundo a agência, não significa que tenham produzido ou endossado a alegação.
O WhatsApp foi a plataforma mais frequentemente associada à circulação de desinformação em saúde nas verificações. Mais de 70% das 498 checagens analisadas partiram de conteúdos que circularam ou foram encontrados no aplicativo. O Facebook aparece em segundo lugar, com 126 registros (25,3%), seguido do Instagram, com 35 (7%). A pesquisa ressalva que os dados não permitem afirmar que o WhatsApp seja a origem dessas falsidades ou que concentre a maior parte da desinformação em saúde publicada na internet.
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