Problemas financeiros e envelhecimento cerebral: estresse pode cobrar preço décadas depois
Dificuldades financeiras persistentes ao longo da vida adulta podem estar associadas a pior desempenho cognitivo na meia-idade e a sinais de envelhecimento cerebral décadas depois. É o que indica um estudo conduzido pela University College London (UCL), no Reino Unido, publicado na revista científica Innovation in Aging em julho deste ano.
A pesquisa acompanhou 2.759 pessoas nascidas no Reino Unido em 1946. Os pesquisadores reuniram informações sobre renda e dificuldades financeiras entre a vida adulta e a meia-idade, além de testes de memória e velocidade de processamento aos 53, 63 e 69 anos. Parte dos participantes também passou por exames de ressonância magnética aos 69–71 anos.
Foram classificados como adversidade financeira tanto a baixa renda quanto as dificuldades para lidar com as despesas. A persistência foi o principal ponto observado: experiências consideradas persistentes ocorreram em pelo menos duas das avaliações realizadas ao longo da vida adulta. Cerca de 16% dos participantes apresentaram baixa renda persistente e 12% relataram dificuldades financeiras persistentes.
Aos 53 anos, quanto maior a exposição à adversidade financeira, pior foi o desempenho em velocidade de processamento e memória verbal. Nos exames de imagem realizados posteriormente, a baixa renda persistente esteve associada a maior volume ventricular, um marcador relacionado à saúde cerebral. O estudo também identificou maior vulnerabilidade entre homens, pessoas que cresceram em condições socioeconômicas desfavoráveis e portadores da variante genética APOE-ε4.
Para o neurologista Philipe Cunha, professor de pós-graduação da Afya Educação Médica Curitiba, o mecanismo pode estar relacionado ao estresse mantido por longos períodos. Segundo ele, o estresse financeiro crônico mantém o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e o sistema nervoso simpático ativados de forma sustentada, elevando glicocorticoides e catecolaminas. Esse cenário favoreceria inflamação sistêmica, perda de plasticidade e redução de volume em áreas como córtex pré-frontal, hipocampo e amígdala.
O especialista ressalta, porém, que os resultados não permitem afirmar que os problemas financeiros sejam causa direta da deterioração cerebral. O estudo encontrou uma associação entre a exposição prolongada à adversidade financeira e indicadores de envelhecimento cerebral. Como resume Cunha, não são episódios isolados, mas a persistência do estresse financeiro que se relaciona a pior saúde cerebral décadas depois.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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