Por que o México está desmilitarizando suas escolas
O governo do México determinou o fim das escolas militarizadas no país. A ordem, emitida em julho pela Secretaria da Educação Pública (SEP), foi respaldada pela presidente Claudia Sheinbaum e ocorreu após a morte de Dafne Zapata, de 13 anos, em um acampamento de verão militar no Estado de Tamaulipas, no nordeste mexicano. Segundo a autópsia, a causa foi asfixia por submersão. O caso consternou o país: a família denuncia tortura e a promotoria investiga a morte como possível feminicídio, com três pessoas detidas.
O argumento oficial é que essas instituições não contam com respaldo legal e que a educação militar é exclusiva das Forças Armadas. Entre 20 e 50 escolas inspiradas em valores, ornamentação e métodos militares precisaram se reinventar, atingindo de 10 mil a 20 mil estudantes. No Colégio Moderno Alarid, na Cidade do México, os alunos deixaram de ser chamados de "cadetes" e passaram a ser "discentes"; o diretor, antes tratado como "comandante", agora é "prefeito". "O militarismo faz parte da nossa história, mas acabou", afirma o diretor Óscar Lira, que diz ter enfrentado "dias de profunda crise emocional" e espera preservar valores como honra, disciplina, sacrifício e heroísmo.
A mudança, porém, enfrenta resistência. As matrículas caíram quase pela metade em muitas dessas escolas, e algumas precisaram fechar. Em Puebla, mais de 50 pais bloquearam avenidas gritando "esta escola não se fecha"; em Zacatecas, no Bacharelado Geral Militarizado, todos os instrutores militares foram substituídos por professores civis, medida qualificada por famílias como "imposição". Uma pesquisa da consultoria Dinamic concluiu em julho que um terço dos mexicanos rejeita o fechamento em massa, mas pede auditorias; 27% apoiam o fechamento definitivo, e a maioria restante se mostra ambivalente.
O caso de Dafne não foi o primeiro. Em 2023, Zamir Pinto, de 16 anos, morreu no Colégio Militarizado Aztlán, no Estado do México, após golpes violentos no estômago; uma pessoa está detida e a escola foi fechada. Em 2025, Érick Terán Torbellín, de 13 anos, morreu em um acampamento da Academia Ollin, em Morelos — a entidade atribuiu a morte a uma "onda de calor", e três pessoas estão detidas. Não há registros oficiais que contabilizem abusos ou mortes nessas escolas, que permaneceram por décadas em um limbo entre a supervisão civil e a militar.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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