Por que a Bíblia evangélica é diferente da católica
A Bíblia usada por católicos e por protestantes — ou evangélicos, termo mais comum no Brasil para denominações protestantes mais recentes — não é exatamente o mesmo conjunto de livros sagrados. As diferenças não se resumem a variações de tradução: elas têm raízes históricas e estão ligadas ao próprio processo de formação do cânone cristão.
De acordo com o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a divergência não está no Novo Testamento. "Protestantes e católicos não divergem quanto ao Novo Testamento. Divergem quanto ao Antigo Testamento", sintetiza. A parte que precede o nascimento de Jesus é praticamente igual às escrituras judaicas. Para os católicos, o Antigo Testamento reúne 46 livros. Os protestantes excluem Tobias, Judite, os dois volumes de Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico (também chamado de Sirácida) e Baruc.
O frade franciscano Maurício Solfa, filósofo, teólogo e psicanalista, reforça que não se trata de duas bíblias completamente distintas. "Não existem duas bíblias completamente diferentes, uma católica e uma protestante. O Novo Testamento é o mesmo", afirma. Já o evangelista e palestrante Adimir Telles, membro da Igreja Assembleia de Deus, lembra que houve um período de disputa sobre a autoridade dos textos, mas que a leitura posterior passou a enfatizar a mensagem comum: "Ambos entenderam que a verdadeira mensagem é amar o próximo".
A raiz da discrepância remonta ao trabalho de escribas em Alexandria por volta do século 3º antes da Era Comum, que traduziram as escrituras judaicas para o grego. Esse conjunto ficou conhecido como Septuaginta, ou "versão dos setenta". Quando os primeiros cristãos buscaram definir seu cânone, voltaram-se para esse material grego. A Igreja Católica reconheceu esses livros como parte de seu cânone, incluindo os sete livros do Antigo Testamento ausentes na versão protestante, além de trechos adicionais em Daniel e Ester.
Com a Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero em 1517, os dissidentes passaram a considerar como fonte inquestionável do Antigo Testamento os textos canonizados pelo judaísmo, sem os sete livros — chamados por eles de apócrifos e, pelos católicos, de deuterocanônicos. Esses livros haviam sido desconsiderados pelo cânone judaico no concílio de Jamnia, na virada do primeiro para o segundo século da Era Comum. Solfa ressalta que os grandes eixos da fé cristã estão presentes nas duas tradições: "Nenhuma das versões da bíblia pode ser desprezada".
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