Perfis usam mulheres de IA em campanha por Flávio Bolsonaro e Lula para atrair público e até vender conteúdo adulto
Um levantamento da BBC News Brasil identificou 37 perfis no Instagram e no TikTok que publicam fotos e vídeos de mulheres criadas por inteligência artificial para apoiar candidatos à Presidência. A maioria das páginas faz referência a Flávio Bolsonaro (PL), mas há também perfis com avatares que declaram apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Juntas, as contas somam cerca de 7 milhões de seguidores.
Um dos casos ganhou repercussão nesta semana, depois que o influenciador Guga Figueiredo expôs as montagens de uma página que colocava uma mulher virtual ao lado de Flávio em um trio elétrico no Farol da Barra, em Salvador. A personagem foi inserida ao lado do candidato em diferentes manifestações e, em outras publicações, anunciava lives e vídeos sexuais. A conta ficou indisponível nas primeiras consultas da BBC na manhã de terça-feira (20/10), mas voltou ao ar à tarde, com mais de 500 mil seguidores.
Segundo o levantamento, os perfis usam temas em alta, como as eleições, para atrair público. Alguns encaminham os seguidores para o OnlyFans, site conhecido por conteúdo adulto, ou para o Telegram, onde vendem material pornográfico por meio de pagamentos em contas no exterior ou por empresas intermediárias. A reportagem contabilizou 504.105 interações nesses perfis, com quase 500 mil curtidas e 18,6 mil comentários. A grande maioria das contas não traz rótulos informando que o conteúdo foi gerado por inteligência artificial, o que viola diretrizes do Instagram e do TikTok.
A BBC não conseguiu identificar os autores das páginas, mas encontrou indícios de que pode haver uma ou mais redes operadas pela mesma pessoa ou grupo: são perfis que se seguem e que direcionam o usuário para um mesmo canal no Telegram, o maior deles com mais de 50 mil usuários. As montagens muitas vezes reaproveitam registros de pessoas reais. Em um dos vídeos, a falsa influenciadora ocupa o lugar do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em uma cena ao lado de Flávio; em outro, assume a posição que antes era de Cristina Graeml, candidata do PSD ao Senado pelo Paraná que não se elegeu.
Para Raquel Saraiva, presidente e coordenadora da área de Gênero e Tecnologia do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), a inserção das personagens em atos políticos faz parte de uma estratégia que conecta a atenção despertada pelas imagens à venda de conteúdo adulto. “Quem produz esse conteúdo faz o pacote completo”, afirma. Na avaliação dela, os criadores reproduzem padrões de beleza para atrair homens heterossexuais e estimular o consumo do material anunciado, modelo que relaciona à exploração da imagem feminina e à misoginia. A tática não é exclusiva do Brasil: nos Estados Unidos, a revista Wired relatou o caso de uma falsa enfermeira pró-Trump que vendia imagens adultas, e, na Alemanha, uma investigação da organização CORRECTIV.Faktencheck identificou 190 perfis com 22 personagens que usavam IA para promover a AfD ou posições de direita e encaminhavam o público a plataformas eróticas pagas.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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