Os milionários de origem cubana que se preparam em Miami para a possível queda do governo da ilha
Um grupo de empresários cubano-americanos de Miami criou a Câmara Nacional de Comércio Cubano-Americana (Cancc) para planejar o que chamam de "dia seguinte" em Cuba, caso o governo comunista da ilha deixe o poder. A quarta reunião da entidade ocorreu na mansão de um cirurgião plástico com vista para a baía de Biscayne, reunindo algumas das famílias mais ricas da Flórida, segundo relato do correspondente da BBC News Will Grant.
O presidente da Cancc, Juan Omar Sixto, afirma que o objetivo é "estar em Cuba assim que cair o regime". Segundo ele, a organização já elaborou uma proposta para uma Bolsa de Valores cubana e formou comitês sobre temas como infraestrutura energética e segurança alimentar. Sixto diz que os empresários contam com o apoio de contatos influentes, incluindo pessoas próximas ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, e que, além de ajuda humanitária e insumos médicos, fariam negócios na ilha imediatamente. Ele afirma que não pisará em Cuba enquanto o regime atual permanecer no poder.
Os participantes minimizam as 176 medidas de liberalização econômica anunciadas recentemente pelo governo cubano, que eliminam o limite de trabalhadores nas empresas privadas, permitem contratação e demissão direta e autorizam a propriedade de várias empresas ao mesmo tempo, inclusive por cubano-americanos. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, declarou que as medidas buscam "promover a defesa do socialismo, apoiar e ampliar a justiça social". Para os críticos, elas se aproximam do capitalismo. Os empresários da Cancc as consideram superficiais e sem garantias significativas para investidores.
Analistas veem os planos como prematuros. O professor de história Mike Bustamante, da Universidade de Miami, afirma que as altas expectativas criadas pelo governo americano de que Cuba "seria a próxima" foram postergadas, diante da proximidade das eleições de meio de mandato em novembro e do envolvimento de Washington na guerra contra o Irã. Ele avalia que é difícil imaginar uma intensificação além do "gotejamento constante de sanções" e que o corte no abastecimento de petróleo, praticamente interrompido desde janeiro, tornou a vida insuportável para a maioria dos cubanos, mas ainda não criou condições para uma reviravolta política.
A questão das terras é central nos planos do grupo. Sixto conta que seu pai perdeu cinco propriedades e uma fazenda em Pinar del Río com a revolução e exige restituição ou indenização, sem intenção de desalojar famílias. O governo cubano qualifica essas reivindicações como ressentimento de uma aristocracia latifundiária corrupta. O especialista agrícola cubano-americano Hugo Orizondo defende que o mais prático é traçar um caminho de desenvolvimento: "No momento, Cuba é como um buraco negro. Não sabemos o que acontece ali. Mas conhecemos seu potencial", diz, acrescentando que investidores trazem dinheiro e tecnologia, necessários para reduzir a dependência da importação de alimentos.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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