O que uma eventual vitória de Flávio significaria para China, EUA e o Mercosul
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial pode alterar a forma como o Brasil se relaciona com os Estados Unidos e a China, além de reabrir a discussão sobre os rumos do Mercosul. Flávio chega à disputa do dia 25 depois de liderar o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam para uma maior aproximação política e estratégica do Brasil com Washington, sobretudo nas áreas de segurança, tecnologia e minerais críticos. A relação comercial com a China, porém, tende a impor limites a um afastamento de Pequim. No Mercosul, um governo Flávio poderia aumentar a pressão para que os países tenham mais liberdade de negociar acordos comerciais individualmente.
Para Marco Aurelio da Silva, consultor de empresas em negócios internacionais e professor de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha, uma vitória de Flávio levaria o Brasil da defesa de uma política de "autonomia multipolar", adotada pelo governo Lula, para uma orientação mais voltada ao Ocidente e ao continente americano. Em setembro, Flávio afirmou que pretende manter uma relação "pragmática" com a China e disse que o Brasil não precisa escolher entre Pequim e Washington. Ao mesmo tempo, o senador já defendeu rever a participação brasileira no Brics, bloco do qual China e Rússia fazem parte, e flexibilizar as regras do Mercosul para abrir caminho a um acordo comercial bilateral com os Estados Unidos.
O pragmatismo em relação à China tem base nos números. Entre janeiro e agosto deste ano, os chineses compraram US$ 77,1 bilhões em produtos brasileiros e responderam por 30,7% de todas as exportações do país. Os Estados Unidos compraram US$ 24,1 bilhões, o equivalente a 9,6%. O Brasil vendeu aos chineses mais de três vezes o valor exportado ao mercado americano no período.
Marcos Valle, economista e professor da Escola de Negócios da Universidade Positivo, avalia que essa dependência comercial funciona como um dos principais freios a uma mudança mais radical na área comercial num eventual governo Flávio. Segundo ele, os Estados Unidos são concorrentes diretos do Brasil em setores como agronegócio e mineração e não têm condições de absorver todo o volume de commodities hoje exportado para a China, e o próprio setor agroexportador tenderia a pressionar pela preservação das relações com Pequim. O efeito mais provável de uma mudança de governo, diz, não seria uma ruptura, mas alterações em contratos estatais de longo prazo, financiamento de infraestrutura e projetos de cooperação tecnológica e espacial.
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