O que explica a preferência dos nordestinos por Lula nas eleições presidenciais?
O PT voltou a liderar a preferência dos eleitores nordestinos no primeiro turno da eleição presidencial, padrão que se repete desde 2002. A votação de Lula na região diminuiu em relação a 2022, mas foi suficiente para garantir a continuidade da disputa no segundo turno, em um cenário em que a direita fez maioria no Legislativo e nos governos estaduais do país.
Um cruzamento de dados do IBGE sobre o IDH e dos resultados do TSE aponta correlação entre mais votos em Lula e municípios de menor desenvolvimento. Em Serrano do Maranhão, com IDH de 0,519, Lula obteve 87% dos votos contra 11% de Flávio Bolsonaro. Melgaço, no Pará, com IDH de 0,418, registrou 63% para Lula e 33% para Flávio. Na outra ponta, Nova Pádua (RS), com IDH de 0,761, deu 87% a Flávio e 7% a Lula; Balneário Camboriú (SC), com 0,845, teve 71% para Flávio e 21% para Lula.
O fenômeno foi identificado pelo cientista político Cesar Zucco em estudo publicado pela Universidade de Cambridge, que diferencia o voto dos pobres do voto em municípios pobres. Segundo o trabalho, o Bolsa Família foi fundamental para que Lula conquistasse apoio entre pobres urbanos de cidades desenvolvidas, rompendo uma barreira geográfica tradicional.
Para Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal, esse fator econômico já não explica sozinho a prevalência de Lula no Nordeste. Ele avalia que a preferência pela esquerda "transcendeu" a gratidão pelo Bolsa Família e se consolidou como identidade regional. "O fenômeno do lulismo moldou um alinhamento afetivo e cultural profundo", afirmou, acrescentando que votar na esquerda se tornou símbolo de cidadania e dignidade para os nordestinos.
Coimbra alerta que o discurso hostil de que o voto nordestino representa "atraso ou dependência econômica" funciona como repelente eleitoral e gera defesa coletiva contra a direita. Segundo ele, a oposição precisa readequar o discurso, pois falar de privatizações e enxugamento da máquina pública soa distante em municípios onde o Estado é o principal indutor do desenvolvimento. O dinamismo do "Matopiba" e a expansão das igrejas evangélicas nas periferias urbanas são apontados como as principais frentes para maior presença da direita na região, embora os resultados devam levar tempo.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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