O que explica a diferença entre o resultado das urnas e as pesquisas
A maior parte dos institutos de pesquisa que divulgou levantamentos na véspera do primeiro turno subestimou a votação do senador Flávio Bolsonaro (PL), que terminou à frente de Lula (PT) em votos válidos. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o fenômeno não se explica por uma falha única, mas por uma combinação de fatores que vai do voto de última hora à abstenção recorde.
Entre os levantamentos de sábado (3/10), o Datafolha apontava 42% para Flávio e 45% para Lula. O instituto ficou 5,03 pontos abaixo do resultado do candidato do PL — mais que o dobro da própria margem de erro, de 2 pontos — e errou por apenas 0,16 ponto a votação do petista. A CNT/MDA, que dava 47,8% a Lula e 42,1% a Flávio, foi a que mais se distanciou no conjunto, com erro de 4,93 pontos sobre o senador e de 2,64 sobre o presidente. O PoderData, com 45% a 43%, também subestimou o candidato do PL em mais de 4 pontos. A AtlasIntel, que trabalhava com a menor margem entre os institutos, de 1 ponto, estimou 47% para Lula e 44,1% para Flávio e errou os dois candidatos para fora dela. Já a Quaest apontou empate técnico, com 46% para o presidente e 45% para o senador, ficando 2,03 pontos abaixo do resultado de Flávio, praticamente no limite da margem de erro.
Para o estatístico Raphael Nishimura, pesquisador da Universidade de Michigan, isso não permite concluir que os institutos simplesmente falharam. Ele afirma que as pesquisas eleitorais têm limitações próprias e não têm como objetivo prever com exatidão o resultado. "As pesquisas são retratos do momento", diz. Uma das limitações é o tempo de coleta: mesmo um levantamento divulgado na véspera pode ter começado a ouvir eleitores vários dias antes, quando parte deles ainda não havia decidido o voto. Segundo a Quaest, cerca de 10% do eleitorado só define o voto para presidente no dia da eleição.
Nishimura lembra ainda que as próprias pesquisas podem alterar o comportamento que tentam medir, ao estimular o voto útil na reta final. A abstenção é outro fator que distorce a comparação: neste ano, o índice de pessoas que não compareceram às urnas no primeiro turno foi o maior desde 1998, com mais 33,4 milhões de eleitores, ou 21,07% do eleitorado. A maioria das pesquisas pergunta em quem o entrevistado pretende votar, e não se ele de fato comparecerá — e, segundo a literatura metodológica, as pessoas tendem a superestimar a própria disposição de ir às urnas.
O pesquisador Pablo Ortellado, professor da Universidade de São Paulo (USP), faz a mesma leitura. "A gente sabe que aqui no Brasil, as pessoas mais pobres, menos escolarizadas se abstêm mais", afirma. Como Lula tem mais votos nesses segmentos, isso gera uma perda de votos quando a abstenção é computada. Alguns institutos já tentam corrigir esse efeito, como a Quaest, que calcula os votos válidos com um modelo de "eleitor provável". Mesmo assim, a estimativa ficou fora da margem no caso de Flávio.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar