O que a eleição de uma estreante deputada federal de 24 anos do Rio revela sobre a onda de direita no Brasil
A eleição de Julia de Castro (PL-RJ), de 24 anos, para a Câmara dos Deputados expõe um movimento mais amplo: a direita conquistou a maioria das cadeiras entre os parlamentares mais jovens eleitos em 2026. Nascida em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e historiadora formada pela Unirio, ela nunca havia disputado uma eleição antes. Estreou diretamente na disputa por uma vaga em Brasília e obteve 103.880 votos, superando veteranos como Glauber Braga (PSOL), Jandira Feghali (PCdoB) e Wladimir Garotinho (PL). Tornou-se a deputada federal mais jovem do Rio de Janeiro.
O desempenho nas urnas foi construído sobre uma base digital já consolidada. Seu nome começou a circular em perfis de direita em 2022, quando passou a publicar vídeos sobre hostilidades que dizia sofrer por ser eleitora de Jair Bolsonaro. Em 31 de agosto, pouco mais de um mês antes da eleição, tinha 447 mil seguidores no Instagram. Levantamento da consultoria Bites feito a pedido da BBC News Brasil apontou que 60% dessa audiência tinha entre 18 e 34 anos, com o maior grupo formado por mulheres de 25 a 34 anos.
A trajetória de Julia combinou influência digital e inserção partidária. Em outubro de 2023, participou como influenciadora de uma conferência conservadora no Rio ao lado dos deputados Luiz Lima e Márcio Gualberto, ambos do PL. Menos de um mês depois, foi nomeada secretária parlamentar no gabinete de Lima, onde ficou por um ano e meio. Em 2025, tornou-se assessora no gabinete de Gualberto na Assembleia Legislativa do Rio e assumiu a vice-presidência nacional do PL Jovem. No ano seguinte, recebeu o convite para se filiar e disputar a eleição. A Direção Nacional do PL repassou R$ 500 mil à sua candidatura, cerca de 84% do total arrecadado.
O caso não é isolado. O PL passou de 97 para 121 deputados e elegeu 19 das 54 cadeiras do Senado em disputa. Dos 59 eleitos com até 29 anos para a Câmara e as assembleias legislativas, 45 (76,3%) são de direita, segundo o Monitor Jovem DX, projeto do Instituto Democracia em Xeque em parceria com a PUC-SP. Entre os nomes de maior projeção estão Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, que bateu o recorde de votação para deputado federal em São Paulo com mais de 3 milhões de votos, e André Fernandes (PL-CE), 28, o mais votado do Ceará, com 684 mil votos.
Para a pesquisadora Beatriz Besen, coordenadora do Monitor Jovem DX, o alcance nas redes não basta sozinho. O êxito eleitoral depende da combinação entre audiência, financiamento, apoio de lideranças, capital político familiar e experiência em disputas anteriores. Segundo ela, a direita foi a que melhor entendeu essa estratégia multifatorial. O PL foi o partido que mais elegeu candidatos jovens: 17 de 57 candidaturas, cerca de 30%. O PT teve êxito em 8 de 43 candidaturas (18%), enquanto PSOL e Novo registraram aproveitamento de 2,1% e 1,7%, respectivamente.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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