O país que pede reparações dos EUA e da Europa pela escravidão
Gana tornou-se a principal voz africana na exigência de que nações e instituições ocidentais que lucraram com a escravidão paguem reparações. O país apresentou à ONU a resolução que, em março, reconheceu a escravidão como "o maior crime contra a humanidade" — os Estados Unidos e a Argentina votaram contra, e todas as nações europeias se abstiveram.
Em junho, a capital Acra sediou uma cúpula sobre reparações com delegados de cerca de 80 países, que concluíram que a compensação é uma dívida de longa data. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Gana, Samuel Okuzeto Ablakwa, afirmou que o país, primeiro da África subsaariana a conquistar a independência, sempre foi um líder pan-africano. A União Africana atribuiu a Gana o papel de "campeão da justiça restaurativa".
O ministro defende que as reparações financiem bolsas de estudo, capital de risco para jovens empreendedores africanos e pesquisas sobre problemas de saúde que alguns acreditam ser consequência das condições desumanas da escravidão. Entre as demandas apresentadas na cúpula está o alívio e o cancelamento da dívida dos países africanos.
A Igreja Anglicana está entre as instituições cobradas. No século XVIII, seu braço missionário administrava plantações e possuía centenas de escravizados, e um relatório recente do fundo patrimonial da igreja revelou grandes investimentos no tráfico. Em julho, a arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, visitou o Castelo de Cape Corso, em Gana, onde orou nas masmorras e na capela construída acima delas. A igreja criou um fundo de impacto social de US$ 135 milhões para comunidades afetadas, mas a medida encontrou resistência interna.
O debate sobre a cumplicidade de africanos na captura e venda de compatriotas também marca a discussão. Ablakwa rejeita a tese, afirmando que nenhum africano participou da elaboração das leis e estruturas financeiras do comércio. Já o rei Tackie Teiko Tsuru II, líder do povo Ga, pediu desculpas publicamente pelo envolvimento de seus ancestrais no comércio de escravizados, dizendo que o reconhecimento do passado é essencial para a cura.
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