Morre idosa que foi despejada e provocou onda de protestos contra crise de moradia na Espanha
Madri — Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos que se tornou símbolo da crise de moradia na Espanha após ser despejada do apartamento onde viveu por mais de 70 anos, no centro de Madri, morreu nesta quarta-feira (7/10). Ela estava internada no Hospital Gregorio Marañón, na capital espanhola, desde que foi retirada de sua residência, em 23 de setembro, por não conseguir arcar com o aumento do aluguel.
O caso de Maricarmen provocou uma onda de protestos em toda a Espanha e levou o governo do presidente Pedro Sánchez a propor, em caráter de urgência, medidas para aliviar a crise habitacional. A rejeição, no Parlamento, na semana passada, de dois decretos apresentados pelo governo levou Sánchez a antecipar as eleições para 29 de novembro. Desde o despejo, milhares de pessoas se mobilizaram na Puerta del Sol, em Madri, onde permanece instalado um acampamento de protesto.
"Lamentamos informar que Maricarmen faleceu hoje", afirmou, em comunicado, o Sindicato de Inquilinas, organização que havia lutado para impedir seu despejo. "Embora tenha sido alcançado um acordo histórico que teria permitido seu retorno à moradia, essa solução chegou tarde demais. Trata-se de uma situação totalmente evitável após um processo torturante", acrescentou a entidade.
Maricarmen era inquilina de um apartamento de 92 metros quadrados no bairro nobre de Retiro, no centro de Madri. Viveu no imóvel da rua Alcalde Sainz de Baranda durante sete décadas, desde 1956, quando seu pai assinou o contrato de aluguel. Após a morte dele, sua esposa assumiu a posição de locatária e, com a morte dela, em 2005, o contrato foi transferido para a filha. O contrato era enquadrado no regime conhecido na Espanha como "renta antigua", firmado durante a ditadura franquista (1939-1975), com aluguéis historicamente baixos. Ela pagava 500 euros por mês (cerca de R$ 2.800), valor muito inferior ao praticado pelo mercado atualmente.
Em 2018, a família proprietária do edifício vendeu o imóvel para a empresa Renta Corporación. Dois anos depois, a companhia ofereceu a ela a compra do apartamento por 247 mil euros (R$ 1,38 milhão), mas Maricarmen alegou não ter condições de pagar. Após a recusa, a Renta Corporación vendeu o imóvel, ainda em 2020, para a Urbagestión, atual proprietária, que inicialmente exigiu aluguel mensal de 2.650 euros (R$ 14,8 mil) e depois propôs reduzir para 1.650 euros (R$ 9,2 mil) — valor ainda 300 euros superior à pensão mensal de 1.350 euros (R$ 7,5 mil) recebida por ela. Após os protestos, a Urbagestión aceitou que ela retornasse ao apartamento pagando aluguel semelhante ao que vinha pagando, sob um novo contrato. Com sua morte, porém, esse retorno não acontecerá.
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