'Modelo Bukele' usado em El Salvador não derrotaria PCC e CV no Brasil, diz especialista em segurança pública
O cientista político canadense Robert Muggah, especialista em segurança pública e violência urbana, afirma que o chamado "modelo Bukele" de combate ao crime, adotado em El Salvador, não teria o mesmo efeito no Brasil se aplicado contra o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em entrevista à BBC News Brasil, ele argumenta que as duas principais facções brasileiras têm estrutura e poderio econômico muito superiores aos grupos criminosos salvadorenhos.
Muggah, que é doutor em Filosofia pela Universidade de Oxford e um dos fundadores do Instituto Igarapé, compara as organizações brasileiras a empresas multinacionais, com negócios diversificados, lavagem de dinheiro e conexões internacionais no tráfico de drogas. Já as facções de El Salvador, como a Mara Salvatrucha (MS-13) e o Barrio 18, são descritas por ele como grupos mais territoriais, com marcadores de pertencimento como tatuagens. "Prender em massa integrantes do PCC como se fez com a MS-13 é muito mais difícil por causa da distribuição da facção brasileira tanto no mercado doméstico quanto no internacional", diz.
Desde que Nayib Bukele assumiu a Presidência de El Salvador, em 2019, a taxa de homicídios no país caiu drasticamente, o que transformou sua política de segurança em bandeira eleitoral em vários países da América Latina, incluindo o Brasil. O modelo inclui regime de exceção, prisões sem mandado, detenções prolongadas e restrição ao acesso de presos à defesa. Muggah reconhece os resultados na redução da violência, mas alerta para o que chama de "consequências graves para os direitos civis, o sistema judicial, as prisões e a própria democracia".
Entre os efeitos negativos citados pelo especialista estão a detenção arbitrária de cerca de 86 mil pessoas em El Salvador, a degradação do devido processo legal e a superlotação carcerária, exemplificada pela construção do Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), com capacidade para até 40 mil detentos. Para ele, o modelo salvadorenho pode não ser facilmente replicado em países maiores e mais complexos, e o governo de Bukele seria "uma democracia apenas no nome, mas com um componente autocrático".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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