Menopausa: por que médicos dizem que o medo da terapia hormonal é maior que o risco real
A Food and Drug Administration (FDA), agência federal dos Estados Unidos que regula alimentos e medicamentos, aprovou em fevereiro deste ano mudanças na rotulagem de seis remédios usados na terapia hormonal da menopausa (THM). Os novos rótulos retiraram o retângulo preto — o mais severo alerta de segurança adotado pela agência — que destacava riscos de câncer de mama, doença cardiovascular e demência associados ao uso desses medicamentos.
Para especialistas brasileiros, a decisão é positiva e pode ajudar a dissipar um temor que persiste desde o início do milênio. Naquele período, o estudo Women's Health Initiative (WHI), publicado em 2002 na revista New England Journal of Medicine, relacionou a terapia hormonal ao câncer de mama e teve grande repercussão mundial. Investigações posteriores apontaram falhas no estudo original e concluíram que, em geral, os riscos da THM são menores do que os benefícios. Segundo o endocrinologista Alexandre Hohl, o WHI reuniu mulheres mais velhas, parte delas fumante, e usou um hormônio derivado da urina de éguas prenhas. Ao separar as participantes mais jovens, não fumantes e sem contraindicações, o risco de câncer não apareceu.
A professora titular de ginecologia da Universidade de Campinas (Unicamp) Lúcia Costa Paiva afirma que a mudança americana dá mais segurança para as mulheres procurarem tratamento e também ajuda os médicos, já que nem todos estão bem informados sobre os avanços da terapia. Hohl faz ressalvas: é preciso cuidado para não supor que todas devem usar hormônios, pois há mulheres sem benefício e sem necessidade, e o hormônio não é inócuo — pode ter riscos.
A THM repõe principalmente o estrogênio, isolado ou combinado com progesterona, hormônios que caem de forma abrupta na menopausa e são responsáveis por sintomas como ondas de calor, suores noturnos, insônia, secura vaginal e alterações de humor. O risco varia conforme o tipo de tumor: no útero, o estrogênio usado sozinho pode estimular o crescimento do tecido que reveste o órgão, razão pela qual a progesterona entra como proteção. Já a terapia é contraindicada para quem teve tumores de mama que se alimentam de hormônio.
Apesar da revisão científica, o medo segue influenciando a prática no Brasil. Um estudo nacional com 1.500 participantes publicado em 2022 mostrou que, entre as mulheres que procuraram um médico com sintomas da menopausa, apenas 22% receberam indicação de THM. Os médicos ouvidos ressaltam que, quando a terapia é indicada, não há motivo para temor, desde que haja acompanhamento médico e exames anuais, como a mamografia.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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