Médicos são acusados de perseguir colegas e sugerir boicote a pacientes por posicionamento político: 'Senti um alvo na minha cabeça'
Um médico anestesiologista de Sergipe relatou à BBC News Brasil ter sido incluído em uma lista de profissionais classificados como "esquerdistas", divulgada em um grupo privado de médicos após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A listagem reunia nomes de 15 médicos sob o título "Lulistas = esquerdistas = petistas" e foi enviada a um grupo de WhatsApp que reúne cerca de um terço de todos os médicos da especialidade no Estado. Ao lado de alguns nomes, foram colocadas bandeiras do movimento LGBTQIA+.
O profissional, que pediu para não ser identificado, disse ter sabido da inclusão de seu nome enquanto se preparava para participar das comemorações pela vitória do candidato que apoiou. Segundo seu relato, ele procurou o colega apontado por outros integrantes do grupo como autor da publicação para questionar a origem e o objetivo da lista, e a conversa foi marcada por gritos, ofensas e xingamentos. O médico afirma que fez postagens em apoio a Lula apenas em redes sociais privadas e que evitava falar de política no ambiente de trabalho.
De acordo com o relato, a publicação teria sido apagada logo depois, e novas ligações ocorreram na sequência, incluindo ofensas homofóbicas. Temendo pela própria segurança, o anestesiologista procurou o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) da Polícia Civil e solicitou medida protetiva. Ele também formalizou denúncia junto à cooperativa responsável pela escala de plantões, que teria atendido ao pedido para que os dois profissionais não fossem escalados juntos enquanto o caso é apurado. O médico diz avaliar com seu advogado a possibilidade de levar o caso ao Conselho Regional de Medicina (CRM).
Outros episódios registrados incluem mensagens que sugerem boicote a pacientes identificados como apoiadores do presidente Lula e do PT. Uma médica cardiologista que atua na Bahia teria compartilhado, em seu perfil no Instagram, uma publicação afirmando que eleitores petistas deveriam sofrer as consequências de suas escolhas políticas. O post dizia, entre outras coisas, "Não ajude petista na fila da regulação", "Não ajude petista em pedido de emprego" e "Não ajude petista com remédio ou dinheiro". Ao repostar a publicação, a cardiologista teria escrito: "Toda escolha traz consequências…".
Diante do temor, um grupo de médicos fez denúncia formal ao Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (CREMEB) e informou autoridades da Secretaria da Saúde do Estado. O perfil da cardiologista no Instagram não está mais ativo, mas, por meio de nota publicada no perfil da clínica em que atua em Lauro de Freitas, ela reconheceu que o compartilhamento "foi um equívoco" e lamentou "a preocupação, a insegurança e o desconforto que possa ter provocado". Afirmou não defender que qualquer pessoa seja privada de atendimento médico, medicamentos ou cuidados de saúde por seu posicionamento político. A clínica declarou não ter "lado político" e que opiniões expressas em perfis pessoais não representam necessariamente o posicionamento institucional.
Em casos de negativa injustificada de assistência, discriminação ou assédio político, a orientação é reunir provas, como mensagens, áudios, vídeos, receitas ou prontuários, e formalizar denúncia aos Conselhos Regionais de Medicina, responsáveis por apurar possíveis infrações éticas. Dependendo da situação, o caso também pode ser levado ao Ministério Público, à Defensoria Pública ou à Justiça comum, especialmente quando houver danos ao paciente ou risco à sua saúde. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Código de Ética Médica estabelece que, em casos de urgência e emergência, o atendimento é obrigatório.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Palavras-Chave
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar