Lula proibir bets é 'desespero por votos' e pode ter impacto em eleição apertada, afirma professor da USP
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve anunciar nesta sexta-feira a proibição das plataformas de apostas online no Brasil, as chamadas bets, a nove dias do primeiro turno da eleição. Segundo apurou a BBC News Brasil, a medida será apresentada no fim do dia, durante evento em São Paulo. Além de banir a atividade por meio de medida provisória, o governo deve editar um projeto de lei que cria pelo menos quatro crimes para quem atuar no segmento de apostas.
Para o professor Pablo Ortellado, diretor da More in Common e professor de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo (USP), a decisão revela um certo "desespero" de Lula diante das pesquisas de intenção de voto. "Banir as bets é uma medida drástica. Ele está fazendo porque acredita que pode ganhar o voto. E eu acho que tem elementos que podem dar esperança a ele. Não vão ser 24% [dos eleitores que vão escolher Lula por causa da proibição], mas qualquer variação percentual já faz diferença no resultado final", analisa. Na avaliação do professor, apenas o contexto eleitoral seria capaz de produzir uma medida tão forte, que desafia interesses econômicos.
Pesquisas recentes indicam forte apelo popular da medida, mas não está claro seu potencial para atrair novos votos. Levantamento da Atlas Intel divulgado na quarta-feira mostra que 75% dos entrevistados dizem ser a favor da proibição das bets no Brasil. Já pesquisa da More in Common, realizada pelo instituto Ipsos-Ipec, aponta que 58% dos entrevistados afirmaram que o fato de o candidato defender restrições ao setor não afeta sua intenção de voto, enquanto 24% disseram que teriam mais vontade de votar em quem defende restringir as apostas. Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, Lula aparece empatado com o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno.
Diante da expectativa do anúncio, as federações de futebol de São Paulo e Rio de Janeiro publicaram na semana passada um manifesto contra a medida. Os grandes clubes paulistas e fluminenses afirmam no documento que o investimento das empresas de apostas autorizadas se tornou uma das principais fontes de receita do esporte, bancando também equipes de menor expressão, divisões de acesso, parte do futebol feminino e a formação de talentos. Segundo o manifesto, a proibição será "um golpe fatal para o futebol brasileiro" e empurrará apostadores para o mercado ilegal.
Durante ato de campanha nesta sexta-feira, Flávio Bolsonaro disse que, caso eleito, "vai estar proibido o jogo do tigrinho e vai estar proibido o cassino online" em seu governo, mas afirmou que manteria as apostas relacionadas a jogos de futebol. As apostas online foram liberadas em 2018, no final do governo Michel Temer, após lei aprovada no Congresso, que previa prazo de quatro anos para regulamentação — não cumprido na gestão de Jair Bolsonaro. O setor só foi regulamentado em 2023, no governo Lula. Segundo a pesquisa da More in Common, 18% dos entrevistados atribuem a expansão das apostas ao governo petista, enquanto 4% responsabilizam a gestão anterior; para a maioria, a responsabilidade é compartilhada (33%) ou não pode ser atribuída a nenhuma das duas gestões (35%).
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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