Liberada pela Anvisa, “maconha medicinal” é contestada em maior estudo já feito
Maior revisão científica sobre canabinoides aponta falta de evidências para uso psiquiátrico
Uma revisão científica que analisou 5.774 estudos publicados ao longo de 45 anos concluiu que faltam evidências robustas para sustentar o uso de canabinoides, os compostos derivados da maconha medicinal, no tratamento de transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. O levantamento é considerado o maior já realizado sobre o tema e ocorre em meio à expansão da regulamentação da cannabis no Brasil.
Desde 4 de agosto, empresas e instituições de pesquisa podem solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorização para cultivar Cannabis sativa no país com fins medicinais e científicos. A medida abriu, pela primeira vez, uma via regulada para a produção nacional da planta. A publicação do estudo, no entanto, ocorreu meses antes de três resoluções da agência sobre produção, plantio e cultivo da cannabis começarem a valer. Os autores alertam que o avanço das prescrições e das iniciativas regulatórias tem sido mais rápido do que a produção de evidências científicas sobre a eficácia dos canabinoides para transtornos mentais.
A análise não encontrou efeitos clinicamente significativos para ansiedade, anorexia nervosa, transtornos psicóticos, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno por uso de opioides. Também não foram localizadas evidências suficientes para avaliar o uso no tratamento de depressão, TDAH, transtorno bipolar, TOC e dependência de tabaco. No caso da dependência de cocaína, os pesquisadores identificaram um efeito adverso significativo, com aumento do desejo pela droga. Por outro lado, houve indícios de benefício para dependência de cannabis, insônia, síndrome de Tourette e transtornos de tiques, embora os autores ressaltem que o grau de confiança dessas evidências é baixo ou muito baixo.
Os efeitos adversos mais comuns — boca seca, náusea, diarreia e tontura — foram significativamente mais frequentes entre os participantes que receberam canabinoides do que entre os que receberam placebo. O estudo estimou a ocorrência de um evento adverso adicional para cada sete pacientes tratados. Já em relação a eventos adversos graves e taxas de abandono, não foram observadas diferenças significativas. Evidências robustas, segundo outros estudos, existem apenas para condições específicas, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, formas raras e graves de epilepsia.
O mercado global legal de cannabis movimenta cerca de US$ 38,5 bilhões por ano e pode chegar a US$ 47,5 bilhões até 2030, segundo a consultoria BDSA. No Brasil, o setor ainda é reduzido, mas as novas regras da Anvisa, publicadas em janeiro e em vigor desde agosto, tendem a impulsioná-lo. As normas foram elaboradas após determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que em novembro de 2024 autorizou o plantio, o cultivo, a industrialização e a comercialização do cânhamo industrial. Em junho, o ministro Ribeiro Dantas também autorizou uma usuária de cannabis medicinal a transportar flores secas da planta para uso terapêutico fora de casa.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar