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Fernão Lara Mesquita ressuscita a lenda negra da “maldita herança jesuítica”

Atualizado em 19/08/2026 às 19:05 schedule 2 min de leitura visibility 22 visualizações share 0 compartilhamentos star star star star star (0)
Fernão Lara Mesquita ressuscita a lenda negra da “maldita herança jesuítica”

Fernão Lara Mesquita ressuscita a lenda negra da “maldita herança jesuítica”

O jornalista Fernão Lara Mesquita publicou um vídeo atribuindo à herança intelectual dos jesuítas a origem de uma suposta cultura brasileira de “ganhar discussões” em vez de “buscar a verdade”. Na gravação, ele afirma que a Companhia de Jesus, fundada em 1534, seria responsável por deformar o cérebro de um povo inteiro por meio da neuroplasticidade, um efeito que se estenderia até os dias de hoje. A tese, porém, esbarra em problemas cronológicos e factuais apontados por historiadores.

O primeiro equívoco é temporal. A ordem foi expulsa do Brasil em 1759 e suprimida universalmente em 1773. Ou seja, o sistema pedagógico jesuítico deixou de operar no país há mais de dois séculos e meio. Especialistas questionam qual mecanismo de transmissão cultural teria preservado um suposto “padrão neural” por nove ou dez gerações, sem qualquer instituição para reproduzi-lo, sobrevivendo ao Império, à República e à era da internet.

O segundo problema é histórico. A ideia de que a ciência moderna nasceu da Reforma Protestante e de que a Contrarreforma jesuítica se definiu por “censura e guerra aberta à ciência” é um estereótipo já demolido pela historiografia especializada das últimas décadas. Pesquisas acadêmicas publicadas por editoras como MIT Press e Springer mostram o oposto: matemáticos do Collegio Romano, como Clavius e Grienberger, confirmaram oficialmente as observações telescópicas de Galileu em 1611, dando ao cientista a legitimação mais valiosa de sua carreira.

Estudos recentes indicam ainda que os matemáticos da Companhia foram as maiores vítimas da condenação de Galileu em 1616 e do processo de 1633, e não seus arquitetos. Um jesuíta, Christoph Grienberger, organizou em 1614 uma demonstração pública no Collegio Romano em defesa da física hidrostática de Galileu contra os aristotélicos florentinos. O vídeo de Mesquita, ao isolar um fragmento de verdade e encadeá-lo a afirmações históricas não verificadas, exemplifica justamente o vício que denuncia, conclui o autor da análise.

Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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Por Ivan Marra

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