Existe mesmo uma onda anti-Argentina no mundo, como diz Javier Milei?
O presidente argentino Javier Milei afirma existir uma onda anti-Argentina no mundo, mas especialistas ouvidos pela BBC News Brasil classificam a tese como ficção ou uma "narrativa conveniente" usada para desviar a atenção dos resultados sociais de seu governo. Para o economista Fabio Giambiagi, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, a ideia de uma ofensiva global contra o país é "simplesmente ridícula". O sociólogo Rogério Baptistini, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, completa que as redes digitais amplificam o discurso construído por setores políticos que dele extraem benefícios.
O argumento ganhou força recentemente no esporte, após a derrota da Argentina na final da Copa do Mundo para a Espanha. Segundo Giambiagi, houve uma reação compreensível às atitudes antiesportivas de jogadores argentinos, que deram as costas à comemoração dos espanhóis logo após a partida. O economista lamenta que a simpatia conquistada pela seleção durante o campeonato, impulsionada pelas atuações de Lionel Messi em sua despedida, tenha sido "jogada no lixo" minutos depois do fim do jogo. Nos dias seguintes, teorias conspiratórias sobre uma suposta interferência da Fifa fortaleceram o discurso de "nós contra eles", isolando a Argentina nos debates entre torcedores.
Baptistini, no entanto, pondera que a Copa é emblemática, mas não exclusiva. Para ele, o discurso contra a Argentina foi amplificado pelo estilo de jogo da seleção, baseado na "catimba" e na irritação do adversário, o que ofende os defensores do "futebol bonito". "No fundo, há um preconceito contra o estilo emocional de futebol dos argentinos", analisa. Ainda assim, o sociólogo afirma que a Argentina "não é especialmente odiada" e que o que existe é um desvio de foco: o ceticismo quanto ao futuro econômico do país teria sido transplantado para uma questão de orgulho nacional.
O lastro que fundamentaria essa narrativa, porém, está posto há mais de 100 anos e tem relação com a imagem de suposta superioridade argentina construída para o exterior. Após a Guerra do Paraguai, o país experimentou um sucesso econômico gigantesco, industrializando-se e consolidando uma identidade de potência regional. A historiadora Érica Cristina Alexandre Winand, em tese de doutorado defendida na Unesp, aponta que essa elite se via como a "órbita de poder" da região que abrange Paraguai, Uruguai e parte do Peru, um ideal transferido de geração em geração. Essa rivalidade com o Brasil, herdeira de conflitos territoriais das antigas metrópoles, teria criado um ambiente em que "o logro dos objetivos de um significaria o fracasso dos propósitos do outro".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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