'Ele achou que já estava eleito': os erros da campanha de Flávio Bolsonaro no segundo turno apontados por analistas
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ao Senado entrou no segundo turno com a convicção de uma vitória praticamente garantida, e essa percepção teria sido um dos principais fatores de sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu com 51,7% dos votos. A avaliação é de analistas e de pessoas próximas à campanha ouvidas pela BBC News Brasil.
Na semana seguinte ao primeiro turno, em que Flávio somou 47,03% dos votos, a coordenadora da campanha, Daniella Marques, dizia a conhecidos da Faria Lima que comandaria o chamado Ministério da Prosperidade assim que o candidato confirmasse a vitória. O plano, segundo fontes, era reunir as pastas do Trabalho e Emprego, das Mulheres, do Empreendedorismo e do Desenvolvimento e Assistência Social em uma única estrutura. "Eles tinham muita certeza de que iam ganhar a eleição", afirmou uma representante do setor varejista que se reuniu com ela no período. "Ficaram desolados com a derrota porque, na cabeça deles, aquilo era uma coisa certa."
O sociólogo Sérgio Abranches aponta que o candidato "achou que estava eleito e entrou no segundo turno muito arrogante". Para o cientista político Hilton Césario, da FESP-SP, não houve um erro único, mas a soma de pequenos equívocos: a falta de respeito com Lula no debate ao chamá-lo de "nove dedos", a dificuldade de demonstrar empatia com a mãe da menina Ana Clara, as declarações da coordenadora de economia e o desprezo às manifestações contrárias nas redes e nas ruas. "O comportamento debochado, arrogante e até agressivo dele pode ter desestimulado a parte dos eleitores que não estava muito firme com a decisão", disse.
Felipe Nunes, fundador da Quaest, segue a mesma linha: faltou à campanha enxergar que parte dos votos do primeiro turno veio de um eleitor pendular, não fixo. Lula ganhou 10,3 milhões de votos entre os dois turnos, a maior quantidade de novos eleitores nesse intervalo desde a redemocratização. Flávio, por sua vez, recebeu cerca de 56,1 milhões de votos, desempenho superior ao de seu pai, Jair Bolsonaro, em 2022. A abstenção caiu de 21% para 19%.
Abranches observa que a campanha do senador manteve o ritmo do primeiro turno enquanto a de Lula se digitalizou e mobilizou o eleitorado de esquerda e da "direita não bolsonarista". Para ele, Flávio "passou a administrar a vitória que achou que teria". Após a derrota, o candidato do PL disse inicialmente que pediria a anulação do processo eleitoral, depois afirmou que lideraria a oposição e que pediria a cassação da chapa vencedora, e viajou aos Estados Unidos, de onde publicou uma carta em que se disse "verdadeiro presidente eleito do Brasil" e, minutos depois, republicou uma versão editada em que se apresentava como "líder do Brasil".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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