Direita e esquerda amam Singapura, mas só contam metade da história
Singapura virou referência obrigatória no debate público brasileiro, mas cada lado do espectro político costuma citar apenas a parte da história que lhe convém. O pré-candidato à Presidência Renan Santos, do Missão, promete “desfavelizar” o Brasil inspirado em Lee Kuan Yew, o homem que transformou a cidade-Estado asiática. Já o desenvolvimentista Ciro Gomes usa o país como prova de que um Estado forte e planejador pode tirar uma nação do atraso. O mesmo país serve de modelo para projetos opostos porque cada um importa só a metade que lhe agrada.
A trajetória de Singapura, porém, não confirma nenhuma das duas versões. O People's Action Party (PAP), que governa a ilha sem interrupção desde 1959, foi fundado em 1954 como uma frente anticolonial de esquerda, com social-democratas moderados e uma forte ala pró-comunista ligada aos sindicatos chineses. Lee Kuan Yew, advogado formado em Cambridge, estava entre os moderados. A convivência durou pouco: em 1961, a ala de esquerda rompeu e fundou o Barisan Sosialis, levando a maioria das bases do partido.
Em fevereiro de 1963, a Operação Coldstore prendeu mais de cem opositores de esquerda sem julgamento, sob acusação de subversão comunista. A ação foi decidida por um conselho de segurança formado pelos governos britânico, malaio e singapurense, e a acusação era contestada na época, inclusive por autoridades britânicas locais. O episódio servia aos interesses de Kuala Lumpur, de Londres e do próprio Lee, que via a esquerda desaparecer do cenário político.
Com o caminho livre, Lee executou um projeto que não cabe em cartilha única. Abriu a economia ao capital estrangeiro, tratou meritocracia e combate à corrupção como prioridades, mas também interveio fortemente: o Estado construiu a habitação da maioria da população e mantém fundos soberanos com participações em setores estratégicos. Foi ele quem substituiu os cortiços por conjuntos habitacionais. O resultado material é inegável — Singapura saltou de porto pobre a uma das maiores rendas per capita do mundo em uma geração —, mas o preço foi um regime de partido dominante, com liberdades civis restritas, imprensa controlada e oposição mantida pequena por meio de processos e leis de segurança.
No debate brasileiro, Renan Santos enxerga a ordem e a mão dura contra o crime, enquanto Ciro Gomes vê o Estado indutor e a política industrial — e reconhece que Singapura “não deve ser modelo” em liberdades individuais ou regime político. A questão que fica é se a eficiência admirada por ambos pode ser separada do autoritarismo que a sustentou. Em Singapura, a ordem e o planejamento foram erguidos depois que a oposição foi presa e o pluralismo reduzido ao mínimo, o que sugere que a metade que agrada a cada lado talvez não exista sem a outra.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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